A fórmula é antiga, de outros carnavais. Durante este período de ócio garantido mas com múltipla destinação folia, viagem, leitura, cinema, pescaria, retiro... , distribuidores e exibidores optam ou por manter inalterada a programação das salas ou resolvem, em prudente comum acordo, lançar poucos e obscuros títulos que geralmente não saem disso mesmo, da obscuridade. No primeiro caso, o feriadão, que inaugura esta atípica temporada de raros feriadões, oferece a oportunidade para atualizar os lançamentos das ultimas semanas. Estão ainda disponíveis os recomendáveis ''O Filho da Noiva'' (agora em sessões normais), ''Prenda-me Se For Capaz'', ''Deus é Brasileiro'', ''O Chamado'', ''O Imbatível'' e ''Gangues de Nova York''. E na segunda opção, duas propostas inéditas coincidentemente chegam às telas em busca de um mesmo público segmentado, aquele que elegeu o suspense e o terror como sinônimos de entretenimento. Os resultados, porém, são bem diferentes.
Exemplar digno do gênero
Mais um caso de ator que se dá bem na direção. Bill Paxton a imagem mais popular é a do aventureiro caçador de tornados em ''Twister'' assina com inteligência e firmeza este ''A Mão do Diabo'' (veja a programação de cinema na página 2), um aceitável e irônico título brasileiro, embora o original, ''Frailty'' (Fragilidade), contenha a força e o significado necessários. O filme é um thriller gótico genuinamente assustador que mais uma vez demonstra a equação simples e eficaz para os filmes de horror: muitas vezes o que é menos na verdade significa mais.
No fim de uma noite chuvosa, um homem chega ao escritório do FBI em Houston, Texas, à procura do agente responsável (Powers Boothe) pela investigação de uma série de mortes conhecidas como os assassinatos da ''Mão de Deus''. O homem se identifica como Fenton Meiks (Matthew McConaughey), diz que seu irmão é o autor dos crimes e abre um baú de terríveis memórias. O relato que faz, na velha e venerável estrutura do flashback, é realmente atemorizante por suas conotações. De volta a 1979, o pai dos irmãos Meiks, depois de perder a esposas, trata de educar os filhos. Mas um fato ocorre e tudo muda: ele recebe a visita de um anjo, que o encarrega da ''missão divina'' que é matar uma série de demônios que na terra têm aparência de seres humanos normais. Adam se entusiasma com a idéia, mas Fenton acredita que o pai enlouqueceu. Mas os dois garotos ficam aterrorizados quando o pai adquire um machado, leva uma mulher estranha para casa e os obriga a olhar enquanto a mata.
Realizadores de última geração não hesitariam em mostrar também à platéia o ato de violência, provavelmente com requintes de sanguinolência. Mas Paxton, que assume explicitamente as benéficas influências do ''Mensageiro do Diabo'', de Charles Laughton, e de ''Com a Maldade na Alma'', de Robert Aldrich, toma rumos bem mais clássicos e mostra somente os filhos assistindo à cena. Esta e outras sinalizações distanciadas das ''inovações'' duvidosas não deixam duvida de que o filme paira acima dos típicos produtos hollywoodianos pendurados em formulas exauridas. O êxito da narrativa também se baseia num postulado básico: o de que o ser humano é mórbido. Mostrar este fato em apenas dois planos o policial interessado sempre em saber mais, como os espectadores permite simplificar a idéia, sem necessidade de outros elementos.
O roteiro de primeira assinado por Brent Hanley reforça o uso de personagens e não de artifícios modernosos, proporcionando um ambiente rico em emoções e inquietações. E torna bem claro que a ''fragilidade'' do original deve ser entendida com a debilidade da fé, dos laços, dos sentidos e, por consequência, como o fortalecimento do fanatismo religioso. E somente uma produção independente como esta, livre da manipulação pelos grandes estúdios, poderia subverter a trama da forma como faz, utilizando ao mesmo tempo um tom tão sombrio e solene.
Apesar do final ambíguo, que alguns podem considerar uma traição ao realismo predominante, ''A Mão do Diabo'' é uma das boas surpresas deste início de ano, dessas que surgem quando as expectativas estão em baixa. Assumido como filme B, o que de fato é forma e fundo, é muito melhor thriller que muitos por aí, como por exemplo ''Navio Fantasma'', a outra estréia da programação.
Terror à deriva
''Navio Fantasma'' não é outra coisa se não uma produção de terror extraída do bagaço do subgênero ''casas assombradas'', com a única diferença de que a terra firme foi substituída pela vastidão oceânica. O típico casarão repleto de entidades sobrenaturais, ruídos suspeitos, aparições e desaparições inesperadas foi trasladado como o título se encarrega de antecipar e levou para alto-mar todo o arsenal de lugares-comuns, rotos e maltrapilhos como as velas de um antigo e romântico galeão de piratas fantasmas.
Mas nosso barco em questão é outro. O navio espectral, uma enorme, oxidada e tenebrosa mansão flutuante navegando à deriva no gelado Mar de Bering, é o transatlântico italiano ''Antonia Graza'', luxuosa embarcação de cruzeiro desaparecida em 1962 em meio a misteriosas circunstâncias. O tal navio ressurge agora saído do nada como o ''Ghost Ship'' do título. Uma equipe especializada em naufrágios vê a possibilidade de fazer um bom dinheiro na operação de resgate. Mas quando os membros sobem a bordo, ocorrem estranhos fenômenos relacionados à trágica morte de toda a população, há 40 anos.
Depois de um início até animador, com alguns toques de humor negro, o argumento se perde. Melhor: acaba, porque tudo a seguir já se conhece há muito, e nada de novo desembarca para enriquecer a tradição do gênero. Além de história repetitiva, o desenvolvimento da trama é pouco ou nada estimulante e termina por fatigar a platéia.
A narrativa é mecânica, cheia de vazamentos, e o filme se mantém à tona a duras penas, já que nem mesmo os truques mais baratos para motivar o espectador desavisado (e eles sempre existem), os chamados sustos, conseguem o resultado esperado.
Como se não bastasse a permanente falta de rumo, a parte final reserva uma violenta guinada no leme que leva de vez por água abaixo a já precária coerência. No entanto, o intenso trânsito de almas penadas em busca do repouso eterno e a revelação de um segredo envolvendo um protagonista importante não são suficientes para causar nenhuma surpresa, boa ou má a não ser um certo desprezo pela paciente inteligência de quem resistiu no cinema até então. A reviravolta absurda anula todas as suspeitas iniciais e ressuscita o obsoleto artifício ''ainda não acabou, vem mais por aí''.
Há que se responsabilizar alguém. E o pouco imaginativo diretor é Steve Beck, veterano perito em efeitos especiais (''O Segredo do Abismo'', ''Caçada do Outubro Vermelho'') e agora reincidente depois da refilmagem pífia de ''13 Fantasmas''.

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