Um cara muito musical
Marcos Losnak
De Londrina
Especial para a Folha2
Nos últimos anos, a história da música popular brasileira vem sendo tema de dezenas de livros. Nunca foram vistas tantas obras retratando ou radiografando a MPB produzida nos últimos 50 anos.
A mais recente novidade é Noites Tropicais (que tem como subtítulo Solos, Improvisos e Memórias Musicais) de Nelson Motta. Lançado pela Editora Objetiva, a obra traz as memórias musicais do jornalista, compositor e produtor musical que acompanhou de perto todas a etapas do desenvolvimento da MPB, da Bossa Nova ao rock nacional.
Nascido em São Paulo em 1944, ainda pequeno foi morar em Copacabana, Rio de Janeiro. Aos 15 anos de idade conheceu a Bossa Nova e se apaixonou pelo gênero que projetou mundialmente João Gilberto. Começou a aprender violão e rapidamente passou a frequentar os encontros musicais de Ronaldo Bôscoli, Nara Leão, Johnny Alf, Roberto Menescal e Dori Caymmi. Em pouco tempo tornou-se amigo de toda a turma inclusive João Gilberto, Vinicius de Moraes e Tom Jobim e começou a compor em parceria com Dori Caymmi.
A principal característica de Nelson Motta foi de não permanecer fechado na Bossa Nova. Acompanhou o surgimento das principais estéticas musicais aparecidas no decorrer dos anos. Estava atento à Jovem Guarda, ao Jazz, à música militante dos anos de repressão, ao Tropicalismo, ao rock nacional e internacional, etc.
Sua penetração em todas as turmas cresceu quando passou a escrever sobre músicas em jornais cariocas. Manteve colunas diárias no Última Hora e Jornal do Brasil. Em seus textos, ele fazia questão de apresentar as novidades da música popular brasileira. Foi o responsável, por exemplo, pela criação do termo tropicalismo. Posteriormente passou a trabalhar na Rede Globo como repórter musical. Foi o grande porta-voz do universo pop assim como Luis Carlos Maciel foi o porta-voz da contracultura em seus textos do Pasquim.
No início dos anos 70, assumiu o cargo de produtor e diretor musical da gravadora Philips, que possuía em seu catálogo os principais intérpretes do País. Com isso, Nelson Motta passou a trabalhar, entre outros nomes, com Elis Regina, Nara Leão, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Chico Buarque, Gal Costa, Mutantes, Jorge Ben, Raul Seixas, Vinicius de Moraes, Tim Maia, Maria Bethânia, Ivan Lins e Erasmo Carlos.
Noites Tropicais traz inúmeras informações de bastidores. Nelson Motta, por exemplo, conta que Tim Maia era amigo de Erasmo Carlos desde criança moravam na mesma rua, na Tijuca, bairro carioca. Ambos fãs de João Gilberto, tocavam juntos e sonhavam montar um conjunto para ganhar a vida e as garotas com música. Tim, com 17 anos resolveu viajar para os Estados Unidos, o berço do rock. Pediu dinheiro para deus e o mundo e comprou uma passagem só de ida. Preso por porte de droga, teve que passar dois anos na cadeia.
Entre as cartas que trocava com Erasmo, foi informado que o amigo havia encontrado outro parceiro musical para tocar, um cara chamado Roberto Carlos. Quando voltou, deportado, Tim encontrou a dupla Roberto e Erasmo fazendo sucesso com Parei na Contramão.
Outra curiosidade narrada por Motta, mais conhecido como Nelsinho, é o início de seu namoro com Elis Regina. Numa noite quente de verão, ele e alguns amigos estavam na casa de Elis e resolveram tomar algumas doses de mescalina (presentinho de Tim Maia). Na manhã seguinte, Elis e Motta estavam aos beijos e abraços. O namoro clandestino durou cerca de um ano, com o marido de Elis subindo pelas paredes e a esposa de Motta desconfiada de alguma coisa.
Noites Tropicais poderia ser uma importante obra para a compreensão do desenvolvimento da música brasileira em suas mais variadas vertentes. Isso porque Nelson Motta acompanhou atentamente, na maioria dos casos participou, o desenvolvimento da MPB nos últimos 50 anos. Mas o autor preferiu relatar suas memórias de maneira direta, sem uma reflexão mais profunda do processo da música brasileira como um todo. Seu relato memorialístico apresenta a paisagem musical em que viveu como uma sucessão de fatos e episódios.
A bela edição de Noites Tropicais peca em pequenos detalhes como alguns nomes grafados de maneira incorreta (Dory, Bethania, Leminsky), a ausência de índice remissivo e também por se restringir quase que basicamente ao que acontecia no Rio de Janeiro. O texto fluído de Nelson Motta não possui a preocupação de apresentar, com minúcias, as datas cronológicas dos episódios narrados, fato que provoca, em algumas passagens, certa confusão temporal.
Esses detalhes não chegam a comprometer a obra como um todo. A autenticidade do relato reconstitui as transformações históricas, culturais e comportamentais das décadas de 60, 70 e 80, onde a música ocupou o papel de principal catalisador.
Noites Tropicais - Solos, Improvisos e Memórias Musicais de Nelson Motta, Editora Objetiva, 462 páginas, R$ 39,50.Em Noites Tropicais, Nelson Motta revela os bastidores da música popular brasileira da Bossa Nova ao rock nacional
ReproduçãoReproduçãoReproduçãoArquivo FolhaNelson Motta faz um relato memorialístico sem se preocupar com reflexões profundas sobre MPB





