Um cara ''maldito''
Jackeline Seglin
De Londrina
O dramaturgo, diretor, ator, compositor, poeta, enfim, o polivalente Mário Bortolotto, 36 anos, um dos fundadores do Cemitério de Automóveis, sempre buscou preservar o estilo do grupo que há quase duas décadas carrega uma marca bastante singular. São 23 peças, quase todas escritas e dirigidas por ele com alto teor de literatura maldita, rock-n-roll e história em quadrinhos. O universo dessa trupe poderá ser conferido neste mês, em Londrina.
É que foi preparada uma programação especial para comemorar os 17 anos de existência do grupo. As atividades começaram na sexta-feira, com a estréia do espetáculo Efeito Urtigão, que será reapresentado hoje, às 21 horas, no Teatro Zaqueu de Melo. Logo após o espetáculo, Bortolotto faz o lançamento de seu primeiro CD, Cachorros Gostam de Bourbon.
Desde 1996, os atores do Cemitério de Automóveis estão radicados em São Paulo, onde já realizaram seis montagens. Também foi na capital paulista que os londrinenses criaram o jornal Urbanos, que traz entrevistas, atividades do grupo e do setor cultural. Mas eles não têm a intenção de se afastar de Londrina e, por isso, sempre voltam à cidade para estrear seus projetos.
Atualmente, o Cemitério é composto por 12 integrantes segundo Bortolotto, meio flutuantes pois alguns também fazem outros trabalhos paralelos. A seguir, os principais trechos da entrevista que Mário Bortolotto concedeu à Folha2.
Como é para o grupo completar 17 anos num momento em que o teatro profissional busca alternativas de sobrevivência em trabalhos isolados?
É difícil. Mas eu preciso manter o grupo até para fazer o meu trabalho da maneira mais independente possível. Caso contrário, eu vou ter que fazer trabalhos de outras pessoas e isso não me interessa. A não ser que realmente tenha a ver comigo. Não sou um ator do tipo que é contratado para fazer as coisas. Eu faço um trabalho se eu tiver afinidade com o projeto.
Atualmente, o grupo mantém um repertório que está sendo apresentado em São Paulo e outras cidades. E os festivais?
Este ano não fomos a festival nenhum. Até temos interesse, mas como a gente agora é um grupo profissional, fica difícil ir para um evento que não seja profissional também, que pague cachê legal e dê condições de trabalho. Não dá pra ir só por farra, como a gente fazia antes. Eu tenho ao meu lado pessoas que precisam ganhar dinheiro para sobreviver.
Mas qual é o barato dos festivais?
Antigamente, era o papo de estar na estrada, de viajar... a farra mesmo. Encher a cara a semana inteira, enfim. Não era pelas peças de teatro. A gente tava cagando pras peças, porque a maioria era de baixo nível.
O que significa para você fazer teatro hoje? Qual o sentido? É o mesmo de 10, 15 anos atrás?
É o mesmo sentido, não mudou nada. Eu estou fazendo a mesma coisa só que com um pouco mais de experiência, qualidade e sabendo mais o que estou fazendo. Faço teatro porque é um meio de passar as idéias que eu tenho. Como se eu estivesse escrevendo um livro ou fazendo qualquer outra coisa. Só que no teatro as idéias chegam às pessoas de maneira mais direta e isso me interessa bastante. Eu gosto de fazer, me divirto fazendo teatro.
Para quem você escreve suas peças?
Eu escrevo pensando nos atores com os quais vou trabalhar. Mas às vezes aparecem imprevistos, principalmente agora que a gente tá nessa fase em que pinta um ou outro convite.
E em teatro, especificamente. Quais suas preferências?
Eu não gosto de montar luz, acho um saco. Gosto de ter a idéia, de conceber, criar, mas detesto ter que montar luz com técnico. E não gosto muito de dirigir também. O ator tem muita vaidade, é um bicho muito fresco, em geral. Ele cria muitas situações difíceis pra você. Eu detesto ser responsável por aquilo que tá rolando em cena. Quando eu estou no palco é mais fácil, porque eu chego na coxia e já meto a boca. Mas se estou na cabine ou na platéia e, de repente, começa a rolar uma coisa que eu não dirigi... é muito ruim. As pessoas vendo uma coisa que na verdade você não fez, que o ator inventou naquele momento...
O que define o trabalho de Mário Bortolotto?
Acho que a palavra é estilo. A gente tem um estilo de trabalho e é muito fiel a isso.
A fonte que o grupo bebe é a mesma de anos atrás?
A gente costuma beber em bares diferentes. E tá difícil beber em bar. Aqui em São Paulo é terrível. São muito bregas, só tocam música sertaneja e pagode. Se você vai num bar que é mais decente, paga muito caro na cerveja. Agora, as fontes que a gente bebe são as mesmas: história em quadrinhos, literatura maldita, cinema. A gente não mudou as referências.





