Jackeline Seglin
De Londrina
‘‘A poesia, a magia, a arte... as grandes sabedorias não podem habitar corações medrosos.’’ Medo. Sentimento que às vezes torna-se uma barreira, e em outras, impulso. O dramaturgo Plínio Marcos viveu 64 anos fazendo a sua arte. Com medo? Talvez. Nunca sem convicção.
Ele sempre vendeu seus próprios livros. Na rua, por telefone, nas portas do teatro, em qualquer lugar... Não perdia tempo com lamúrias. E foi assim até seus últimos dias. Sua biografia está parada. Isso não é novidade numa carreira de mais de 40 anos. Quando acabava de escrever uma peça, lia para os amigos em reuniões informais em casa. Vendia o texto para um editor, mas não conseguia livraria para colocar o livro. Alguém tentava encená-lo, faltava patrocínio.
Na ditadura, não deixavam o cara sair do lugar. Barravam tudo. ‘‘Barrela’’ ficou anos censurada – assim como ‘‘O Abajur Lilás’’ e ‘‘Navalha na Carne’’. O motivo? Eram ‘‘pornográficas’’ e ‘‘subversivas’’. Ele não desistiu. Continuou disparando sua maior arma: a palavra. E com ela chegou ao final dos anos 90, como um dos maiores dramaturgos contemporâneos.
Apesar do reconhecimento, Plínio Marcos morreu sem ver sua biografia publicada. Não teve tempo. Ninguém bancou o projeto. Registro não tinha muito. Ele guardava tudo na cabeça e sabia de cor a maioria de seus textos. Mas estava tudo encaminhado para sua mulher, a jornalista Vera Artaxo, colocar no papel – na opinião do autor, só ela seria capaz de descrever sua vida. Essa batalha agora é dela.
Nos últimos anos, a obra de Plínio Marcos foi redescoberta. Suas peças voltaram para os palcos em montagens importantes e reconhecidas. Viraram filme. Foram para o exterior. Tudo aconteceu em tempo de ele sentar na poltrona do teatro e assistir, com vontade, umas 10 vezes a mesma encenação. De ter o prazer de ver um público tocado por um texto que jamais ficou perdido no tempo.
No período que ficou sem escrever livros, o autor viajou, deu palestras e assistiu a várias montagens de suas peças. Retomou o papel e a caneta – ele só escrevia à mão – e concluiu as peças ‘‘O Bote da Loba’’ e ‘‘O Homem do Caminho’’, além de reescrever ‘‘Chico Viola’’, um musical que havia perdido.
Em seu último livro, ‘‘O Truque dos Espelhos’’ (lançado em setembro deste ano), Plínio Marcos colocou no papel histórias que há tempos contava nas rodas de amigos. Histórias do circo onde começou. Histórias de Frajola, o palhaço Plínio. E queria produzir mais. Tinha planos de fazer mais dois livros este ano. Na última entrevista à Folha2, também em setembro, Plínio contou que estava ‘‘tramando’’ levar uma das histórias de ‘‘O Truque dos Espelhos’’ para Portugal. E brincou: ‘‘Indo pra Portugal talvez a gente passe em Londrina, né?’’
Em meio às homenagens, às lembranças, Vera Artaxo tenta pensar no ‘‘daqui pra frente’’, dando continuidade à jornada que iniciou ao lado do companheiro. A edição das obras completas está parada. E agora? Agora ele não está mais aqui para contar suas histórias e agora Vera vai ter de buscar na memória e no tempo de convivência o que ainda não foi para o papel... ‘‘Ele não quis que eu escrevesse nada antes de saber quem iria editar. E ele não está mais aqui para me ajudar...’’ Mesmo no hospital, Plínio Marcos não queria parar. Pediu à mulher papel e caneta para continuar escrevendo. Não conseguiu. Do novo livro infantil, ficou a primeira página. Uma única página. Mais uma... Sua obra ficou. Para sempre!!

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