O poeta Paulo Leminski costumava lembrar Donovan para qualificar as escrituras deste vosso pífio croniqueiro, e divertia-se com a citação, em inglês - ‘‘he was a retired writer in the sun’ (‘‘ele era um escritor exilado ao sol’’) extraída de um texto do poeta-músico, e que solta assim, sem mais nem menos, confundia muita gente. Havia os que pensavam tratar-se de um obscuro vate inglês do século XVII ou, quem sabe? -a erudição do Polaco era coisa que impressionava -, um filósofo alemão exilado na Bretanha...
Nem uma coisa nem outra: tio Lema matava dois coelhos com uma só cajadada - homenageava um artista pop, já então muito esquecido, hit dos sixties, e punha de novo, na berlinda, com aquele gosto seu narcísico, a não pequena equipagem intelectual.
Mas estou lembrando Leminski e Donovan, acreditem, a propósito do meu quintal no arrabalde - recém-chegado da Ilha de São Francisco, onde andei praias e poemas, mangues e dunas, com o poeta Fernando Karl e sua mais recente namorada - dou aqui com o meu caquizeiro em festa.
Alguém poderia contrapor - ‘a quem isso pode interessar?’, ao que eu, e o meu caquizeiro, contestaríamos de pronto - se nada diz ao eventual leitor destas linhas que um caquizeiro esteja em festa, no exagerado verão de um quintal de província, este leitor não é meu leitor, e dispensá-lo, desde já, da leitura do que se segue, é tarefa que se impõe como advertência.
Um caquizeiro pode falar mais do tempo e da vida que muito vate inglês do XVII, e não tem sido outro o seu desvelo de existir - ainda ontem, folhinha assanhada num copinho de iorgurte, ninguém poderia supor que desse hoje na árvore vigorosa que avança além do telhado da casa e, invariável, pelos fevereiros e marços, arredonda-se de folha e fruto, atraindo os sabiás e sanhaços (isto mesmo, gentil leitor, sanhaços, como não se fabricam mais nem aqui nem na Sardenha), além, claro, da profusão de joãos-de-barro, canários-da-terra, pardais, bem-te-vis e tico-ticos.
Um mês antes das férias, o caquizeiro vinha aprontando uma festa no chão - depois de cobri-lo literalmente com as florzinhas macias que despetalam-se ao sabor do vento, deixando, presos aos galhos, uma que espécie de miniatura do fruto - sem tirar nem pôr, o desenho do caqui maduro, só que em versão reduzida - exibia, na véspera da viagem, ainda que verdolengos, os redondos caquis que agora fazem a delícia da piazada.
Melhor que um caquizeiro só outro caquizeiro nas tardes abrasadas cá do bairro e o nosso, vos garanto, não faz feio - pontual nos desfolhamentos do outono, feioso pelos invernos, e assim esta exuberância, a cada verão, é um caquizeiro de estirpe - grande e profuso, caqui-café da melhor qualidade.
Dona Angelina, a vizinha de cerca, não há mais; seo Florindo, o marido, também partiu desta para melhor, ainda que tenha de pagar no purgatório as vezes sem conta em que pecou por pensamentos, palavras e obras ao infernizar-me a vida para que solicitasse as devidas licenças à prefeitura e mandasse vir ao chão o caquizeiro; mais de um presidente da República passou por aquelas escrivaninhas envernizadas do Alvorada e do Planalto; os governadores sucederam-se no terceiro andar do Palácio Iguaçu, assim como os prefeitos alternaram-se na gerência do mui leal burgo de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, e nada tirou do velho caquizeiro o seu intento cantor - passa verão, passa inverno, passa outono e primavera, geadas, granizos, ventanias, tempestades, e ele não se cansa, do ofício de viver não se cansa, e insiste, a árvore plena de caqui maduro, balançando ao vento da tarde com uma indiferença imponente e majestosa.
Caqui-café de sumarenta polpa, mais de uma vez Paulo Leminski provou deles, a dentadas ávidas, porque tudo no poeta era compulsivo, e se queria talvez exageradamente mais, além, e melhor, não muito diferente do caquizeiro que aqui se dança, os galhos vergando em ouro e mel, metáfora perfeita de um verso de Yeats, esculpido em mármore, e que não merece que lhe corrompa a natureza essencial uma tradução apressada : ‘‘It was a such sweet tree that didn’t exclude the men’’.

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