O blues, o jazz e o gospel foram gestados nas lavouras de algodão americanas do século XVII, quando os negros cantavam seus lamentos para atenuar a brutalidade da escravidão. Batizadas de spirituals, as canções atravessaram gerações constituindo um rico legado folclórico, preservado pela tradição oral.
O Trio EnCanto Negro, de Curitiba, bebeu nessa fonte estabelecendo um repertório calcado nas matrizes vocais do gênero e em suas heranças posteriores na música popular americana. O grupo é uma das principais atrações do Festival de Música de Londrina. Seu concerto é hoje, às 18 horas, no Auditório da Associação Médica, com entrada franca.
O grupo é formado por Fátima Castilho (mezzo soprano), Juarês de Mira (baixo) e Fabio Cardoso (piano). No palco, eles interpretam spirituals com arranjos de Harry Burleigh, Lawrence Brown e Hall Johnson. Mostram ainda peças de compositores que utilizaram a temática da música negra em suas obras, como George Gershwin e os brasileiro Basílio Itiberê, Waldemar Henrique, Francisco Mignone e Hekel Tavares.
Em boa parte do programa, melodias singelas carregam histórias de labutas e dores, sem deixar de expressar alegria, esperança e fé. Nas origens, os spirituals surgiam espontaneamente, sem acompanhamento de instrumentos. Há registro de cerca de 600 canções do gênero, embora muitas tenham se perdido através da transmissão oral (os escravos eram proibidos de ler ou escrever).
Com o fim da Guerra Civil americana, em 1865, e a libertação, a maioria dos antigos escravos procurou manter-se distante da música do tempo do cativeiro. O repertório, todavia, foi valorizado com a formação do Coral Fisk Singers Jubilee, na Universidade de Fisk de Nashville, em Tennessee (EUA). O grupo fez uma turnê com o propósito de levantar fundos para a instituição e acabou colaborando para divulgar os spirituals ao se apresentar em lugares que nunca tinham ouvido esse legado musical negro.
Posteriormente, o Coral fez excursões pela Europa e em outras regiões do globo estimulando a criação de outros grupos dedicados a cantar spirituals. A partir daí, as velhas canções cantadas pelos escravos tornaram-se objeto de garimpo, pesquisa e difusão avançando para o século 20. Numerosas coletâneas foram lançadas. Tal repertório foi interpretado e cantado por grandes cantores de ópera como Leontyne Price, Grace Bumbry, Jessye Norman, Barbara Hendricks e outros.
Posteriormente, o spiritual deu origem a outros gêneros musicais americanos como o blues, o jazz e o gospel. O Trio EnCanto Negro resgata esse tesouro e vem mostrá-lo, pela primeira vez, ao público londrinense. Para melhor conhecê-lo, segue um breve currículo de seus integrantes. Fátima Castilho é de Angra dos Reis (RJ). Além do EnCantro Negro, participae outros grupos vocais da capital paranaense como Camerata Antiqua de Curitiba, Quarteto Angra, Conjunto Carmnina e Canto Colonial de Curitiba.
Já se apresentou como solista em concertos da Orquestra Sinfônica do Paraná (OSP), atração de ontem no Festival. Em 2001, recebeu homenagem da Assembléia Legislativa ''pelos relevantes serviços prestados à comunidade Afro-Brasileira e paranaense''. Em 2003, venceu o concurso ''Aldo Baldin'', em Florianópolis (SC) para integrar o papel-título da ópera ''Carmen'', de Bizet.
Juarês de Mira, por sua vez, é de Tomazina (PR). Foi cantor lírico do Teatro Guaíra, com o qual participou de várias montagens de óperas e concertos. Assim como Fátima, recebeu homenagem da Assembléia Legislativa do Paraná em 2003, no caso pelos ''relevantes trabalhos realizados na área cultural''. Fábio Cardoso, por fim, é de São Jorge d'Oste. Depois de se formar na Escola de Música e Belas Artes do Paraná, atuou como pianista do grupo vocal Brasileirão, do Conservartório de MPB da Capital, onde foi também professor de piano.
Além do EnCanto, participa como pianista do coro Del CCI e do Coral Champagnat da PUC-PR, além de acompanhar a cantora Rogéria Holtz em seus shows.

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