Um canto de amor pelo cinema
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 26 de maio de 1997
Antônio Mariano Júnior 
Arquivo FolhaCida Moreira: Priorizei gêneros musicais específicos e também o que ficaria bem em minha vozComo de costume, disco temático. E como de costume também, personalíssimo. O mote da vez é música e cinema. Cinema nacional, é bom que se diga. E é dentro desta proposta que a cantora Cida Moreira volta às prateleiras de discos, depois de quatro anos, com um trabalho que reúne 16 canções utilizadas em trilhas sonoras de produções cinematográficas nacionais. Chama-se Na Trilha do Cinema (Kuarup) traz um repertório tão eclético como interessante mas que, no entanto, não funciona - e nem poderia funcionar - como resumo musical das produções feitas da década de 40 até os dias de hoje.
O conceito maior de Na Trilha do Cinema está fincado no resgate de canções, algumas primorosas. A Cida coube aglutinar estilos e compositores de vários naipes de modo a não desinteressar a quem por ventura - ou esnobismo mesmo - não se interessa tanto - ou quase nada - pelo cinema brasileiro. Lado a lado estão, por exemplo, clássicos da brejeirice como Tristeza do Jeca (Angelino de Oliveira, do filme homônimo feito em 61) com sonoridades prafrentex como Vocalise (Arrigo Barnabé, do filme Estrela Nua, de 85).
Consciente ou não, Cida privilegiou as músicas de filmes produzidos na década de 80. Ao todo, seis canções. Da década de 40, que é por onde o roteiro musical do disco começa, apenas duas canções antológicas - Você já foi à Bahia (Dorival Caymmi, do filme homônico, de 45) e O Ébrio (Vicente Celestino, de filme homônimo, de 46), a qual Cida Moreira consegue retirar a carga risível que o tempo embutiu.
Da década de 90, por onde o disco termina, apenas duas canções - Dolores Sierra ( do filme Beijo 2348/72, de 90) e A Terceira Margem do Rio (Milton Nascimento e Caetano Veloso, do filme homônimo, 94). São os pontos altos do disco em função da interpretação magnífica de Cida Moreira, que também arrasa em Pra Ver o Sol Nascer (Gilberto Gil, do filme Um Trem para as Estrelas, 87) e A Felicidade (Tom Jobim-Vinícius de Moraes, do filme Orfeu do Carnaval, de 59).
Entretanto, Cida consegue deixar um tanto quanto arrastada e chata Muié Rendeira (Domínio Público, do filme O Cangaceiro, de 53). Acompanhada apenas pelo piano de Gil Reyes - que também assina a direção musical do disco - o máximo a que o então baião consegue provocar é uma certa sonolência. Mas Cida concebeu assim e assim foi registrado. Vale pelo resgate.
O grande lance de Na Trilha do Cinema é que Cida não apresenta uma proposta óbvia. Muito pelo contrário. Até hoje nunca se ouviu dizer de alguém que prestigiasse o cinema nacional através da música. E Cida não só fez isso como também registrou em disco. Só por isso (e longe do possível ufanismo cinematográfico), Na trilha do Cinema já vale a pena. Se não bastar, vale também pelo canto de Cida, agora menos desesperado.
TestamentoO disco - o sexto de sua carreira - tem direção musical de Cida e de Gil Reys, que assina a maioria dos arranjos. Nasceu em 95 quando a cantora foi convidada por Henrique Andrielli, direto do Sesc de São Carlos (SP), para fazer um show só com músicas compostas para o cinema brasileiro. Para realizá-lo, Cida pesquisou - com ajuda de gente bamba como Zuza Homem de Mello, Julio Medaglia e Carlos Reichenbach - e chegou a um repertório inicial de 60 músicas. Deste total, selecionou pouco mais de 20 e as cantou.
No ano passado, ela retomou a idéia tendo em vista a gravação de um disco com o tema. Foram escolhidas 16. Para colocá-las no disco priorizei gêneros musicais específicos e também o que ficaria bem em minha voz - disse Cida Moreira. Entre as descartadas, Fulaninha (Paulinho da Viola), Joanna Francesa (Chico Buarque), Luz do Sol (Caetano Veloso). Por pouco, mas por pouco mesmo não entrou Tema de Amor para Gabriela.
Durante as pesquisas, Cida descobriu, por exemplo, que até o Cinema Novo não era comum se fazer trilha sonora para filmes no Brasil. Utilizavam-se, até então, músicas já conhecidas do cancioneiro nacional.
Enfim, o disco. Esse trabalho não tem a pretensão de fazer um retrato histórico do cinema nacional e muito menos é um disco didático - avisa ela. É um disco como ela gosta, ou seja, temático. Disco, na minha concepção, tem que ter uma idéia, uma informação cultural ampliada. Disco é testamento- analisa.
Há dois erros de informação no encarte do CD. O primeiro: a música Perseguição (Sérgio Ricardo e Glauber Rocha, do filme Deus e o Diabo na Terra do Sol) foi feita em 64 e não em 76. O segundo: quem toca piano na faixa Terceira Margem do Rio é Gil Reys e não Cida Moreira. Deverão ser corrigidos nas próximas prensagens.
A aproximação de Cida com o cinema nacional é antiga. Ela, por exemplo, já foi atriz - trabalhou em filmes como Ao Sul do Meu Corpo (de Paulo César Sarraceni), A Estrela Nua e Olho Mágico do Amor (ambos de José Antonio Garcia e Ícaro Martins), entre outros. Nunca teve pretensão de ser atriz, assim como descobriu, apesar de trabalhar um pouco na área, que não queria ser psicóloga.
Queria a música e hoje dela vive. A vocação intensificou-se durante a adolescência, a qual uma boa parte foi vivida em Londrina - dos 14 aos 18 anos. Aqui, por exemplo cantou em corais de igreja e escolas como o Colégio Mãe de Deus. Daqui foi para São Paulo, tomou contato com gente da música - das mais diversificadas tendências - e tornou-se Cida Moreira. Ou melhor, Cida Moreyra. Com y era muito sofisticado. Agora é com i mesmo e ponto final- informa.
Hoje, aos 45 anos, Cida Moreira segue o seu destino musical. E diz que está muito bem, obrigada. Eu ocupo um lugar único porque não faço disco pensando em ganhar muito dinheiro. Eu faço disco porque preciso cantar- diz ela. Então tá!!


