Rabat - Deixe de lado qualquer fragmento de memória que você tiver sobre o Marrocos, seja ele a de Humphrey Bogart em ''Casablanca'', a de Peter O'Toole em ''Lawrence da Arábia'' ou ainda a de Giovana Antonelli em ''O Clone''. Nada disso revela o país. Afinal, as cenas do clássico romântico foram filmadas em Hollywood e ''Casablanca'' é hoje uma cidade industrial, os dromedários são mais usados em passeios turísticos e as ruelas percorridas por Jade na novela são bem mais limpas e charmosas que as de Fez.
Com mais de três mil anos de história, de tradições religiosas e de influências culturais, definir o Marrocos é tarefa para poucos. Tão poucos que entre eles está um homem que governou o país por quase quatro décadas: o rei Hassan II, criador de uma metáfora que beira a perfeição. ''O Marrocos é uma árvore com a raiz fincada na África cujas folhas respiram ares europeus'', assinalou.
Apenas 15 quilômetros de água separam os dois continentes. Distância que diminui na medida em que costumes tribais vão sendo substituídos pelos vindos do outro lado do Mediterrâneo e que valores milenares perdem espaço para hábitos do mundo moderno. Sua relação com a religião também parece ser única no mundo árabe.
O regime muçulmano marroquino em nada lembra as rigorosas regras em vigor em países como o Afeganistão e a Arábia Saudita. Se nas cidades cuja herança religiosa é mais forte (como em Fez) o véu cobre a cabeça da maioria das mulheres, em outras mais ocidentalizadas (caso de Marrakesh) ele chega a desaparecer, dando lugar a longas cabeleiras.
As contradições culturais aparecem também na figura do atual rei, Mohammed VI. Sua pouca idade para a posição, 43 anos, inspira os jovens ávidos por uma reforma islâmica e sob constantes tentações vindas da Europa. Por outro lado, episódios como o atentado terrorista em Casablanca, em maio de 2003, o divide entre decisões de ''pôr fim à era de indulgência'' e ações que incentivam uma maior abertura internacional.
Engana-se quem pensa que tais dilemas são um problema para quem visita o país. Ocorre o oposto. As diversas facetas do Marrocos que mescla a herança africana ao clima ora mediterrâneo ora desértico com a arquitetura moura, os costumes muçulmanos e as influências européias o tornam uma terra ainda mais fascinante.
Tal mistura causa uma marca indelével na lembrança de quem visita o país e, junto dela, ficam também outras duas características do povo marroquino: a simpatia e a admiração pelos brasileiros. A gratidão pela publicidade do país (ainda que polêmica), com a veiculação da novela que a ''Globo'' exportou mundo afora, aliada à paixão marroquina pelo futebol abrem as portas para os brasileiros.
E o ato simbólico vem sempre acompanhado de um sorriso e do esforço para comunicar-se, especialmente se as questões forem pontuadas por um ''salam aleikon'' (que a paz esteja contigo) no início e um ''shukran'' (obrigado) no final. (Colaborou Marcelo Forlani, especial para a Agência Estado)

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