Bruno Garcez
Agência Folha
Quando Gilberto Gil apelidou Dorival Caymmi de ‘‘Buda Nagô’’, certamente ainda não conhecia a cantora cabo-verdiana Cesária Évora, 58. Em entrevista por telefone, de Paris, a cantora, com suas frases curtas e longos silêncios, mostra-se o laconismo em pessoa. Se ela já fala pouco, a intermediação de uma intérprete não facilita muito. Cesária prefere se expressar no dialeto crioulo de Cabo Verde, muito próximo do português, mas acrescido de línguas africanas e pitadas de francês.
O tom oracular de Cesária Évora não impede, no entanto, que ela se solte de quando em quando. Seu entusiasmo cresce quando fala de seu novo disco, ‘‘Café Atlântico’’. O CD traz músicos cubanos e brasileiros. Marisa Monte produziu e fez dueto com Cesária na faixa-bônus para o Brasil ‘‘É Doce Morrer no Mar’’, de Dorival Caymmi e Jorge Amado, gravada no Rio, e Jacques Morelenbaum criou arranjos e orquestrações.
‘‘Café Atlântico é um local imaginário onde cubanos, brasileiros e cabo-verdianos se divertem tomando uma boa bebida’’, define Cesária. Segundo a cantora, a afinidade musical entre esses povos fez com que o novo CD soasse como seus discos antigos. ‘‘É música cabo-verdiana, mas com novos elementos.’
Assim como sua música, Cesária pouco mudou. Mesmo após ter se tornado uma frequentadora de palcos internacionais, insiste em não usar sapatos, o que lhe valeu na França a alcunha de ‘‘diva dos pés descalços’’. ‘‘Se estivesses aqui haverias de ver, estou descalça e com os pés no chão. Só na rua é que uso uma chinela’’, disse.
A fama internacional também não levou Cesária a abandonar seu país. Ela vive em Mindelo, capital da ilha de São Vicente. O local é homenageado na faixa ‘‘Carnaval em São Vicente’’, que celebra semelhanças com o Brasil. Cesária explica porque ‘‘São Vicente é um Brasilim/ cheio de ‘‘ligria’/ cheio de cor’’: ‘‘Durante o Carnaval, São Vicente torna-se um pequeno Brasil. Formamos blocos e vamos para a rua. É uma grande animação por três dias’’.
Não é a única afinidade entre Brasil e Cabo Verde. Há muito em comum entre choro e samba-canção e a morna cabo-verdiana. Entre as músicas do CD, há até uma, ‘‘Terezinha’’, que não faria feio em um São João brasileiro.‘‘Café Atlântico’’, novo CD de Cesária Évora, tem participações especiais de músicos brasileiros e cubanos
Arquivo FolhaCesária Évora: ‘‘No disco, cubanos, brasileiros e cabo-verdianos se divertem tomando uma boa bebida’’

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