UM CABARÉ RECICLADO
Só faltaram desgastados calendários de borracharia para conferir a antiga concessionária da Ford, na Zona Oeste de Londrina, o aspecto decadente mas bastante original de uma oficina mecânica. O inusitado espaço abriga a programação musical do Festival Internacional de Londrina deste ano e utiliza ferramentas, sucatas e câmaras de pneus como decoração. Foram utilizadas mais de 200 câmaras, transformadas em confortáveis poltronas para quem precisar recuperar as forças para aproveitar todas as atrações do Cabaré.
O evento encerra somente no dia 30, com show acústico de Cássia Eller. A atração de encerramento do Cabaré só foi conmfirmada pela organização na última sexta-feira. Corria nos bastidores do Filo que a verba já minguada para o evento era insuficiente para uma atração como Cássia.
Mas com orçamento reduzido ou não, o Cabaré é uma das atrações mais esperadas do festival. Mesmo porque, a mesma falta de verbas impediu que o evento fosse realizado no ano passado, aumentando a expectativa do público para a programação deste ano. As atrações, no entanto, vêm em verão, banquinho e violão, para poupar custos com músicos acompanhantes.
O Cabaré abriu ontem, com o espetáculo El Húsar de La Muerte, do grupo chileno La Patogallina, que faz reapresentação hoje. A programação musical só começa amanhã, com a nervosa invenção melódica de Hilton Ruiz e Chico Freeman. Natural de Nova York, Hilton Ruiz empresta ao piano a mais pura influência jazzística, de Miles Davis a Charlie Parker, resultando num autêntico malabarismo harmônico.
Ruiz já dividiu os palcos com feras como Charles Mingus, Ismael Rivera e Tito Puente, que morreu no ano passado. Na apresentação é acompanhado pelo saxofonista americano Chico Freeman e pelo percusionista Oseiku Dañel Diaz.
O show inaugura uma característica do Cabaré. Neste ano, artistas locais abrem o evento. Precedem o show de jazz, o grupo londrinense Clube do Choro, com um repertório para lá de saudosista. O grupo existe há quarenta anos e é formado por Roberto Guerra Neto (violão); Frederico Belinatto (cavaquinho); Antônio José Micheli (percussão); Pedro Moretto (saxofone e clarinete) e Alberto Barroso (cavaquinho).
Na quinta-feira no Cabaré, a atração local será excepcionalmente substituída pela cantora mineira Titane, que prepara o público para a reapresentação de Hilton Ruiz e Chico Freeman. Titane tem um repertório eclético e dá um sotaque regionalista às suas gravações. O roteiro dos seus shows fica a cargo do marido, o diretor João das Neves.
Seu primeiro disco, gravado em 1986, tem a participação do grupo Uakti. A cantora gravou mais dois discos, Verão de 2001 (Eldorado) e Inseto Raro (Selo Atração), onde vale-se de interpretações peculiares para composições de Caetano Veloso, Lenine, Milton Nascimento, Tom Jobim e Chico Cesar. De Cesar gravou composições inéditas, como Folia de Príncipe (1993).
Titane prepara o repertório para o próximo CD, ainda sem nome, com sotaque de Congada e deve dar uma mostra do que o público pode esperar do seu próximo trabalho na única apresentação que faz no Cabaré.





