‘‘As boas idéias sempre acontecem, o mais difícil é achar o tom certo para contar uma história’’. Assim, o roteirista Hilton Lacerda comentou sobre o ‘‘exercício da possibilidade da construção de uma história’’ que 20 participantes da oficina da roteiro estão colocando em prática desde segunda-feira, no Hotel Cedro, em evento realizado pela Kinoarte – Instituto de Cinema e Vídeo de Londrina em parceria com a 7ªMostra Londrina de Cinema. O evento, que se encerra amanhã, também está realizando a oficina de documentário com o cineasta Kiko Goifman. Desta oficina sairão quatro curtas-metragens produzidos pelos alunos que serão exibidos amanhã, às 20h30, no Bar Valentino (Av. Bandeirantes, 61).
  Aos 39 anos, Lacerda pode exibir com orgulho a assinatura dos roteiros de ‘‘Baile Perfumado’’ e ‘‘Amarelo Manga’’ , filmes premiados que trouxeram de volta, em em grande estilo, a temática regionalista do cinema nordestino para a grande tela. Como ele mesmo diz, ‘‘no início as pessoas iam ao cinema assistir a um filme nordestino com uma certa condescendência. Hoje já estão mais preparadas e sabem que vão ver algo com conteúdo. Podem até criticar, mas não será possível ficar indiferente ao que viram’’, afirmou.
  E não é para menos. Seja para falar da história de Lampião (‘‘Baile Perfumado’’,1997) ou de vários personagens marginalizados da periferia do Recife, em que as perversões são dramatizadas (‘‘Amarelo Manga’’, 2003), Lacerda deixa evidente o desejo de superar o que é óbvio e desconstruir algumas idéias preconcebidas. O desafio é sempre ‘‘perder a paixão pela idéia e entrar na ansiedade da narrativa, buscando criar mecanismos para a sua realização’’, argumenta o roterirista, que também se dedica à produção de curtas e séries exibidas pela TV Cultura.
  No seu processo criativo, conta que o que mais vale são suas experiências de vida, os livros que lê e a capacidade de observar. ‘‘A gente não sabe exatamente quando uma determinada situação vai ajudar a compor um personagem; isso acontece meio que naturalmente, de forma intuitiva’’, comentou. Um exemplo é o modo de falar de uma prostituta, em ‘‘Amarelo Manga’’, que foi copiado do jeito que uma tia, já falecida, falava.
  Ele também confessa que muitas vezes o roteirista se diverte com a ‘‘arte de se vingar’’. ‘‘Tem certas coisas que você coloca em um personagem que só quem vivenciou com você aquilo vai entender a sua intenção. É uma certa forma de vingança, embora sutil’’, afirmou.
  Acostumado a trabalhar com pessoas conhecidas, disse que normalmente o argumento já está pronto e cabe a ele ampliar a história e criar os personagens. Atualmente, pela primeira vez, está fazendo a adaptação de um livro – ‘‘Na margem da linha’’, de Paulo Soares –, para elaborar um roteiro para o cineasta Murilo Sales. ‘‘É muito diferente escrever um roteiro assim porque sempre tenho que saber o que interessa mais. O livro em si já é um bom argumento, mas acho mais fácil quando escrevo de forma livre.’’
  Formado em jornalismo e educação artística, Lacerda começou a se interessar profissionalmente pelo cinema aos 24 anos e fez o seu primeiro curso de roteiro com Lírio Ferreira e Paulo Caldas. Esta fase culminou com uma nova geração de cineastas pernambucanos que começava a buscar formatos inovadores para a cinegrafia regional.
  Autodidata, Lacerda recentemente co-dirigiu, com Lírio Ferreira, e fez o roteiro do documentário ‘‘Cartola’’, que deverá ser divulgado nacionalmente no primeiro semestre do ano que vem. Em um trabalho de pesquisa que vem sendo feito desde 1998, o documentário traz imagens raras de Cartola, em entrevistas recuperadas que foram realizada nos anos 60, cenas de filmes em que ele trabalhou como ator, depoimentos de familiares e curiosidades como o fato de Cartola ser estéril, mas ter tido dezenas de ‘‘filhos do coração’’, e de gostar de tomar no seu desjejum diário um copo de cerveja e conhaque. ‘‘Foi um trabalho intenso de pesquisa que fez com que ficássemos íntimos do personagem. Cai o romantismo bobo, mas podemos ver a grandeza, a criatividade, os erros e acertos de um ser humano’’, destacou Lacerda.

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