O Brasil está descobrindo o violonista Yamandú Costa, que ganhou projeção nacional ao vencer a última edição do Prêmio Visa. Prova disso é que domingo passado, enquanto recebia cumprimentos dos fãs no Canal da Música, em Curitiba, pela apresentação no projeto Estação Mix, também podia ser visto no programa ''Passando a Limpo'', de Bóris Casoy, na Rede Record.
Mais de 600 pessoas aplaudiram o espetáculo. ''Que bom, casa cheia'', disse o músico quando ocupou o palco. No entanto, no transcorrer da noite, apesar dos longos aplausos, a resposta não foi a esperada. Ontem pela manhã, em entrevista à Folha2, Yamandu confessou seu incômodo: achou que ninguém estava gostando, e só percebeu o contrário quando teve que voltar duas vezes para o bis.
Com 21 anos transformou-se em celebridade nos meios musicais. Foi a grande revelação do Free Jazz Festival 2001, além de vencer o Visa. Porém, antes de estar na vitrine brasileira, gravou um CD ao lado de músicos americanos, em Nashville, em 1998, e já esteve ao lado de outros grandes como o lendário Dino Sete Cordas, Paulo Moura, Altamiro Carrilho, Toquinho, Dominguinhos.
Extremamente simples, Yamandú Costa não se deixa levar pela purpurina da fama. Seu compromisso é com a música, e com aqueles que têm a ventura de ouvi-lo. ''Não fico deslumbrado'', garante o moço, de bombacha e tamanco, enfatizando assim suas raízes gaúchas. Universais.
Comenta-se que toda vez que você toca, você improvisa e nunca apresenta um mesmo número. É assim?
Sempre foi. Quer dizer, isso é uma coisa cultural minha. Não vem da minha família, mas das ruas onde toquei depois. Quando tinha 14, 15 anos comecei a tocar com os cantores regionais gaúchos, e um deles tinha essa coisa, mais por preguiça mesmo, de completamente improvisar em cima do palco, sem saber o que ia tocar. Três minutos antes subia no palco, sentia como estava o público, o clima do lugar e fazia o roteiro. Acho isso válido para você sentir-se cara a cara com o público. Às vezes você se dá mal, mas é um risco que vale a pena correr. Você está ali com sua arte tocando para quem quer escutar e descobrir uma coisa diferente.

Você seria uma espécie de jazzista ao contrário?
Acho engraçado essa marca que o mundo colocou em cima do jazz. O jazz é uma das músicas mais lindas que existe, e foi um estilo que mostrou ao mundo a forma de algum improviso. Não me sinto um jazzman. Eu me sinto um brasileiro que improvisa, como Bach improvisava, como Mozart improvisava. O jazz para mim não é parâmetro de improviso nem de estilo. Toco algumas peças porque adoro. Mas sem essa pompa, sem essa intenção de chegar e falar ''sou jazzman'', como se fosse uma grande coisa. Para mim é que nem o choro, o samba, a música francesa. Agora, esse estigma que se criou em cima do jazz de ele desenvolveu o improviso é um equívoco. Tem brasileiros que se colocam em cima disso como se fosse uma coisa fina, de classe. O cara fica olhando pra longe, fumando charuto, sem entender que Mozart improvisava o ano todo. Acho legal falar disso, e a minha maneira de tocar é essa. Sem dúvida que o improviso lembra aqueles caras.

Conforme o tipo de platéia predomina um estilo musical?
De alguma forma, sim. O choro funciona mais no Rio. Engraçado isso. Ontem, até o final do show, quando rolou aquele bis todo, estava achando tudo uma merda. Eu pensava: a moçada não está gostando. Aí pediram bis e voltei. Depois pediram outro, e vi que estavam adorando. O que era? Era a maneira do público, um pouco mais fria. Aí é o preço do improviso que se paga. Muito bacana você improvisar, mas tem um preço.

Por falar em preço, o fato de você ter sido o vencedor do Visa neste ano, estar sendo apontado como um grande violonista não tem seu preço? Será que isso não causa alguma timidez no público? Como você encara a projeção que está tendo no momento?
Fico muito feliz com tudo isso, mas tenho consciência que é um trabalho que vem sendo feito há muito tempo. Só no centro do País são quatro anos. Você pode analisar, por exemplo, que tenho parceiros no Rio e São Paulo. No Rio, Armandinho e Paulo Moura, isso bem antes do prêmio. Então o trabalho vem acontecendo há muito tempo. O prêmio foi tipo uma marca d'água, entende? Deu uma levantada, deu mídia, fez eu lançar um disco. Mas é o primeiro passo, o primeiro degrau da escada; estou muito tranquilo, porque é uma coisa feita de maneira sólida. Não estou aí que nem um babaca. Passei por alguma coisa não sofri, não passei fome, aquele velho layout , mas passei por algumas coisas para chegar até esse pequeno reconhecimento que está acontecendo. Minha carreira sempre foi de luta, desde os quatro anos de idade. Não fico deslumbrado; mas o reconhecimento vem numa hora muito legal.

E dá espaço ao violão...
Sem dúvida. A preocupação é essa: você poder levar esse instrumento a figuras que não conhecem. Só conhecem tocando Legião Urbana e tal; sabe, aquele violão, aquele pedaço de pau que toca num churrasco? E aí você mostrar pro pessoal que tem mil sons, mil idéias, mil coisas... Então é muito legal isso. O pessoal está carente de escutar esse tipo de coisa, e quando escuta gosta, se identifica. O som tem uma cara de jovem, mesmo tocando Nazareth, do início do século. Não importa. A cara é jovem sempre. Quando toco, a idéia é mais ou menos essa.

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