Um brasileiro no reino do SÓ BLUES
Ranulfo Pedreiro
De Londrina
São apenas três acordes. O suficiente para complicar a vida de quem fica na superficialidade. O blues é simples mas não é fácil. Muitos se arriscam em suas águas sem alcançar a profundidade necessária, escorregando em interpretações desajeitadas. É um gênero em que não basta o conhecimento técnico. Como o samba, exige intimidade para se tornar espontâneo.
O gaitista Flávio Guimarães amadureceu musicalmente no blues. On the Loose, seu novo disco solo, evidencia o valor técnico e a desenvoltura de um grupo de instrumentistas que já está atraindo nomes internacionais. Ao invés de velocidade e notas em excesso, prudência e intensidade. Sem cair em exibicionismos amadores, Guimarães trabalha cada nota, aproximando, às vezes, a harmônica da guitarra.
Respaldado pela produção do guitarrista argentino Danny Vincent, Flávio Guimarães mostra um repertório que mistura standards e composições próprias. On the Loose traz participação especial de Charlie Musselwhite, gaitista americano, em Jam for Big Walter (Flávio Guimarães/Charlie Musselwhite) faixa que retrata bem o clima de jam session, gravada em 1996. Outro destaque é o vocal de J.J. Jackson em You Was Wrong (Freddie King) e Baby What You Want me to Do (Jimmy Reed).
Eu já conhecia o pessoal que compõe a banda. Em dezembro de 1998 fui convidado para abrir o show do B.B. King em São Paulo e reuni o grupo. O resultado ficou muito bom e resolvi botar o time para gravar, comenta Flávio Guimarães em entrevista por telefone à Folha2.
Além de Danny Vincent, o grupo conta com Ari Borger um tecladista de blues de primeiro time , Silvio Alemão no baixo e Junior Moreno na bateria, além da participação de Bruce Henry no contrabaixo, Otávio Rocha no violão e André Tandeta e Pedro Strasser na bateria.
A intensidade interpretativa não se respalda em composições arrastadas e timbres depressivos, mas em levadas dinâmicas que escapam do estigma baixo-astral. Algumas músicas eu curtia fazer em apresentações ao vivo, como os standards que entraram, porque já estavam mais ou menos na veia. Aí eu peguei algumas idéias minhas para composições e foi por aí, completa.
O trabalho ganhou mixagem no Estúdio Nas Nuvens, de Liminha, por Vitor Farias, um dos grandes feras do país. O resultado é perceptível. É um trabalho que tem sonoridade superior à maioria dos discos de blues feitos por aqui, salienta Guimarães.
On the Loose apresenta maturidade e não é à toa. Flávio Guimarães já está com cerca de 15 anos de estrada como gaitista do grupo Blues Etílicos. Ele foi aluno de Maurício Einhorn e hoje é professor de harmônica. Isso vem com o tempo, a gente vai amadurecendo e gostando mais da densidade do que jogar um monte de notas. O Danny Vincent também é assim, cada nota é um gol, afirma.
Embora exista no Brasil um público fiel, que compra discos e procura os shows de blues, as bandas especializadas ainda são escassas. O que existe, na maioria das vezes, é uma mistura de blues com outros elementos, principalmente o rock.
Essa mistura é legal, é saudável, pouca gente toca o blues tradicional hoje. A tendência é a mistura. Mas a maioria pega uma influência de blues muito superficial. Às vezes alguns músicos que tocam bem diversos estilos dão apenas uma olhada no blues e já saem tocando. O resultado fica estranho. Agora já existem músicos como o Nuno Mindelis e o Danny Vincent, e até o próprio Blues Etílicos, que estão tocando bem, ressalta.
Flávio Guimarães e banda vão fazer o lançamento de On the Loose nos dias 11 e 12 de fevereiro em Campinas e 17 e 18 de março em São Paulo. O show, posteriormente, deve percorrer também os estados de Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina. O disco saiu pela gravadora Eldorado e é dedicado ao bluesman William Clarke.





