“Creio que há dois tipos de pessoas”, disse Sean Connery em entrevista à revista Playboy, julho de 1994 : “as que vivem sob uma concha e esperam a aposentadoria e aquelas que saem por aí com olhos bem abertos. Sempre andei pelo mundo com o olhar atento e preparado para o que desse e viesse”. E completou: “Tudo o que fiz foi respeitando meus próprios ciclos, os meus tempos, com meu próprio suor. E se as coisas não corriam como eu gostava e queria, ia adiante em meu caminho”.

Escocês. E nacionalista. E ex-James Bond (o melhor 007 de todos). Saiam da frente.

Alguns devem ter se lembrado dessas palavras quando ele, possesso, decidiu se retirar da cena artistica (se aposentar, se preferirem) quando ia começar a atuar numa produção de 17 milhões de dólares, “Josiah’s Canon”, como um sobrevivente do Holocausto que chefia uma quadrilha para recuperar o ouro nazista num banco suíço.

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A desculpa oficial para a retirada da profissão foi “dar um tempo” para escrever a autobiografia, mas na verdade o que se soube de fato foram as muitas brigas com o diretor e produtores do mega-fracasso “A Liga Extraordinária” (2003), seu ultimo filme.

“As dores de cabeça que resultam dessas megaproduções esgotaram todo meu entusiasmo”, desabafou ele então, o que reforçou a suspeita de que a deserção como anúncio de adeus seria definitiva. Na verdade, Connery – que se decidiu bastante tarde pela carreira de ator, mas que esteve em mais de 50 filmes desde seu triunfo como James Bond em “O Satânico Dr. No” (1962) até “Armadilha”(1999) – foi espaçando cada vez mais suas aparições no cinema: depois deste somente esteve em “Encontrando Forrester” (2000) e no malfadado “A Liga...”, aquele indigesto coquetel de personagens vitorianos saídos de algumas das mais prestigiosas páginas da literatura de fantasia. Sobre qualquer dúvida sobre seu estado de ânimo de como se sentiu a respeito dos rumos da indústria cinematográfica no inicio do século, convém lembrar outra frase daquele período: “Perdem tanto tempo em Los Angeles falando de negócios que se esquecem de fazer bons filmes”.

Sean Connery, soberbo, em "O Vento e o Leão"
Sean Connery, soberbo, em "O Vento e o Leão" | Foto: Reprodução

A outros, com sua idade na época (74), já teriam sugerido a retirada. A Connery não. E não só porque tinham dado a ele o titulo de Sir, e porque ninguém poderia duvidar de sua vitalidade face ao fervor com que sempre assumiu sua militância a favor do nacionalismo escocês. Mas também porque, como disse a bela Candice Bergen, sua partner no notável “O Vento e o Leão”(1975), “é maravilhoso ver que um cara com tanto talento só melhora com os anos, e que quanto mais velho mais se torna amado”.

Seu poder de sedução o fez ser votado pela revista “People” como o homem mais sexy do século XX, e foi fator determinante de seu prolongado êxito – acrescido da autoridade que provém de sua aparência e a sobriedade que caracteriza suas atuações.

O homem que deu rosto definitivo a James Bond (e deu a ele, 007 um irresistível toque de humor) nunca definiu metas para sua carreira. Também não sonhou com nenhum personagem especial: “tudo depende dos livros”, disse ele. Saiu-se muito cômodo na aventura (foi pai de Indiana Jones na “Última Cruzada” de Spielberg (1989) ou no antológico “O Homem que Queria Ser Rei” concebido por Kipling e emoldurado na tela por John Huston(1975); na ficção científica (“Zardoz”, 1074); no policial de época (“Os Intocáveis”, 1987, seu único Oscar); na comédia (“Negócios de Familia”, 1989); no suspense hitchcockiano (“Marnie”, 1964), no drama de guerra (“O Mais Longo dos Dias”, “A Caçada ao Outubro Vermelho”. Foi um maduro Robin Hood ao lado Audrey Hepburn (“Robin e Marian”, 1976), e se esqueceu de sua imagem de sex symbol para vestir o hábito de monge em outro policial de época (“O Nome da Rosa”) ou para encarnar o solitário escritor inspirado em Salinger em “Encontrando Forrester” (2000).

Talvez não haja tantos grandes filmes em sua carreira, mas foi uma trajetória suficientemente sólida para dar a ele lugar de destaque no cinema mundial. “Não há mais do que sete estrelas genuínas no universo do cinema...”, disse uma vez Steven Spielberg. “... e uma dela é Sean”.

Fez tudo a seu modo, com seu próprio suor. Nasceu pobre, em Edimburgo. Quando menino entregou leite para ajudar em casa. Teve que deixar a escola e mais tarde fez um pouco de tudo, como se alistar na marinha – de onde trouxe para sempre duas tatuagens nos braços: “Mamãe e Papai” e “Escócia para Sempre”. Também cultivou o corpo e chegou a ficar em terceiro lugar no concurso de Mister Universo. E sempre sonhou em ser um dia “um velho de belo rosto, como Hitchcock ou Picasso”. O desejo deve estar conforme com a imagem que vê no espelho nos últimos anos: o de um homem idoso de porte nobre e ar de sabedoria, quem sabe pensando quando vai contar toda sua história em autobiografia. Com certeza um best seller.

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