Para estas gerações mais recentes - a duração bíblica é uma a cada 40 anos - que pensam que já viram tudo que assusta na categoria terror, chegou a hora da verdade: há quatro décadas, ao custo insignificante de 350 mil dólares, o mestre do gênero John Carpenter (roteirista, diretor, produtor, montador, compositor e mais...) trazia para o convívio aterrorizante nas salas de cinema um personagem quase imortal que, por trás da máscara impenetrável que caracteriza "o mal em estado puro" (definição de Carpenter), matava pessoas a facadas, dando início a um subgênero - o "slasher", ou o esfaqueador, ou por extensão o filme de terror dotado de violência via facadas. Há um arco de quarenta anos entre o "Halloween" original ("A Noite do Terror", foi o subtítulo no Brasil) que revolucionaria para sempre o filme de terror, e este agora em exibição em Londrina. Durante o intervalo, a franquia não rendeu nada memorável, já que Carpenter esteve ausente como cabeça pensante, apenas atuando como produtor executivo.

"Halloween": todos os elementos importantes do filme dos anos 1970 estão de volta nesta nova versão
"Halloween": todos os elementos importantes do filme dos anos 1970 estão de volta nesta nova versão | Foto: Divulgação



Não é necessário ver ou rever qualquer dos halloweens das últimas décadas. Não valeria a pena. Bastaria uma reprise estratégica do número 1 , nas salas mesmo, para uma avaliação - aí sim, com tudo a ver. A versão que está nesses dias nas telas ignora todos os títulos da franquia, menos o primeiro. E mesmo ignorando todas as retomadas daquela trama do final dos anos 1970, o "Halloween" 2018 mostra, com detalhes sutis, que ele sabe da existência das continuações. Mas para fixar o interesse do público que chegando agora, e que "está ali só por ouvir falar", o filme só precisa de seus três elementos básicos: o Halloween, o serial killer Michael Myers e a diva do filme, a atriz Jamie Lee Curtis.

Exatamente tudo o que está no novo filme, sem idas e vindas, sem esforços indevidos, sem malabarismos exóticos para reencaixar as peças. Simplesmente passou o tempo, muito tempo, mas as forças que se enfrentam estão intactas. Sem ser novidadeiro é que o filme atinge com folgas seu objetivo.
Agora, Laurie Strude (Jamie Lee) já é avó. Inteligente, mas marcada pelos eventos traumáticos ocorridos em sua juventude, ela agora é uma sobrevivente, e se comporta como tal para continuar a viver. O personagem, pela força e determinação, lembra aqui a Sarah Connor de "O Exterminador do Futuro" e a Ripley "Alien", respectivamente Linda Hamilton e Sigourney Weaver. A presença de Jamie Lee é ponto altíssimo no filme e pura alegria para a legião de fãs. Por outro lado, Michael Myers volta a ser interpretado por Nick Castle, e mesmo sem revelar o rosto - a máscara marmorizada diz tudo, ou não diz nada... - o público que o conhece sabe de quem se trata, e quais são seus maus, péssimos modos.

O diretor David Gordon Green realiza com absoluta eficácia o duplo jogo de respeitar (venerar) e ao mesmo tempo modernizar o clássico de Carpenter com uma sábia criação de suspense seguida de uma explosão de violência sádica. Green não se distancia muito das fórmulas do gênero e também não aprofunda nenhum personagem. Talvez a principal novidade seja sinalizar as contradições geracionais entre a avó, sua filha Karen e sua neta Allyson. Homenagem, sequela, imitação, regresso ao mais puro e duro filme slasher , esta retomada da história pode não ter a grandeza de seu modelo original, mas o resultado artístico é mais que satisfatório. David Green resolve muito bem a maioria das sequências, com sobriedade e estilo. A marcante, antológica e inesquecível trilha musical de John Carpenter está de volta, com toques de modernização introduzidas pelo próprio autor. Uma joia, permanentemente rara.

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