“Como não escrever sobre isso?” É assim que o biólogo e escritor Moacyr Eurípedes Medri conclui ao terminar de contar uma história: durante um ano, enquanto fazia mestrado em Manaus, se hospedava, de 15 em 15 dias, na casa de um caboclo, chamado Raimundo, dono de um seringal – objeto da tese.

Medri todo dia rezava para que não estivesse lá quando dona Alice, esposa de Raimundo, grávida do sétimo filho, parisse. Porém, numa madrugada, enquanto dormia nas redes – como os seis filhos do casal – Alice entrou em trabalho de parto. No local não havia energia elétrica, apenas uma lamparina iluminando a madrugada. Medri perguntou a Raimundo o que poderia fazer por eles. O pai da casa pediu para que ele pegasse uma faca e a esquentasse na brasa para que, então, cortasse o cordão umbilical de seu recém-nascido. “Como não escrever essa história?”. Esse acontecimento na vida de Medri mostra sua vida no melhor de seus dois mundos – o estudo da biologia e a vontade de escrever. Essa história, mais de 30 anos depois, virou um conto.

Medri vem de uma família de lavradores e trabalhou na roça até os 25 anos. Desde 2010, escreve textos literários, que contrastam com a linguagem de artigos científicos, dos quais já publicou mais de 50. Para ele, uma mistura dos dois tipos de texto é ideal: dessa forma, o texto técnico deixaria de ser “duro”, como ele adjetiva.

As inúmeras plantas na casa de Medri não escondem seu amor pela botânica – objeto de estudo do escritor. Tampouco os títulos de suas obras: a maioria deles se relaciona com a natureza. Sua última obra, lançada em maio de 2019, se chama “Pedras, Paus & Pétalas”. Sua paixão pela literatura é fruto da admiração que sentia por um professor no colegial. Foi com ele que Medri aprendeu algumas coisas sobre a poesia, como, por exemplo, que o gênero não é apenas um formato, com rimas e métricas. Aos 17 anos, aprendeu que “da poesia podemos perceber o tempo em que o autor escrevia, como ele estava se sentindo, qual era o ambiente social e político em que ele vivia”, diz.

Enquanto jovem e adulto, ele sempre pensou em ler e escrever, mas a vida o levou para outro caminho: a faculdade de biologia. Essa decisão foi tomada porque, segundo um professor que o auxiliou na época, a carreira de professor seria um futuro certo. Ele foi aluno da primeira turma do curso na Universidade Estadual de Londrina. Quando terminou, fez o mestrado e doutorado em Manaus, trabalhando com botânica. Depois de alguns anos, voltou para Londrina e, na UEL, terminou sua carreira de docente, que durou 45 anos, contando escolas, cursinhos e graduação.

Moacyr Eurípedes Medri: até suas histórias de andanças pela Amazônia viraram contos
Moacyr Eurípedes Medri: até suas histórias de andanças pela Amazônia viraram contos | Foto: Natália Perezin

Transição

Medri revela que várias vezes pensava “se eu puder, vou colocar no papel as coisas que eu penso”. Foi em 2010, quando estava se preparando para aposentar, que decidiu se preparar para a transição de professor para escritor. Então, no mesmo ano, lançou seu primeiro livro, “Da Cor da Terra”, contendo 24 contos. Após a boa recepção pela crítica, Medri se sentiu mais motivado ainda para escrever e em 2013 lançou outro compilado de contos, “Cheiro de Chuva”. Em 2015, lançou seu primeiro romance, “Travessia: a felicidade não mora ao lado”, que conta a história da imigração italiana no interior de São Paulo. Seu último livro “Pedras, Paus & Pétalas” tem como espinha dorsal o preconceito racial. Essa história, passada em Londrina na década de 40, é dividida em três partes - as duas primeiras, de dor, e a segunda, de alívio – e foi inspirada na discriminação que duas professoras negras Medri teve na escola sofriam e nos imigrantes da região.

Segundo ele, suas inspirações vêm das vivências, principalmente dos contos da família e da fase em que morou em Manaus. Várias vezes, aborda a imigração italiana, sua origem. Assíduo leitor, suas maiores referências literárias são Jorge Amado, Machado de Assis, Antero de Quental, entre outros escritores luso-brasileiros.

Como Medri, outros autores reconhecidos têm outras profissões, caso de Guimarães Rosa e Moacyr Scliar, por exemplo, que eram médicos. João Cabral de Melo Neto, que enquanto exercia a profissão de escritor, era também diplomata. Cecília Meireles também foi pintora e professora.

*Supervisão: Célia Musilli

Editora da Folha 2

Serviço:

'Pedras, Paus & Pétalas', de Moacyr Eurípedes Medri

Editora Atrito Arte, 770 págs

R$ 50,00, à venda na Livraria da Vila (Aurora Shopping)

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