''Toda beleza será convulsiva, ou não será'', já dizia Baudelaire no final do século 19. Ver poesia no lixo urbano, na sujeira das ruas, no amontoado de gente se espremendo para indo para o emprego na cidade. Ver poesia onde menos se espera que ela esteja. Na garota que vende hot dog na esquina, no carro enguiçado, na lama.
Para os gregos antigos a beleza era tudo aquilo que estava ligado ao bom e ao justo. Em uma das falas de ''O banquete'', no livro ''Diálogos'', de Platão, um médico filósofo define que o amor é todo o estado de coisas que entram em harmonia. Como o agudo e o grave na música, que são opostos um do outro, mas combinados, tornam-se agradáveis aos ouvidos. Portanto, belo.
Félix Guattari, parceiro do filósofo Gilles Deleuze, diz que os corpos devem entrar em estado de equilíbrio, até atingir a otimização. ''Portanto'', reverbera a psicanalista Suely Rolnik, ''não há um estado ideal de cura, mas processos de tratamento''.
Diante dessa idéia, podemos pensar que nem Deus nem o diabo estão fora de nós. E que a bondade e a maldade perdem o sentido uma sem a outra. E que é preciso equilibrá-las, a todo instante, sabendo que não há um ponto fixo e ideal para mantê-las. O que, convenhamos, não é exercido nem pelo poder dos céus, nem pelo poder das trevas, mas por cada um de nós.
Algo que para uma pessoa é o mal, para outra pode ser um bem. Algo que pode parecer ruim em um momento, no momento seguinte pode transformar-se em uma maravilha. Tudo depende do quanto somos capazes de aprender com as experiências. Fica valendo a atenção que damos ao que ocorre à nossa volta. De um simples resfriado às ameaças de ataque a uma nação no Oriente Médio.
A arte, é possível pensar, pode ser um dos portadores dessa consciência perceptiva. Em si, ela não é boa nem ruim, nem também é só o reflexo da realidade, mas dialoga o tempo todo com os fatos e acontecimentos do nosso mundo.
E a realidade é composta de paradoxos. Um pintor como Barnett Newman, por exemplo, que acabou se tornando parte do chamado ''expressionismo abstrato'', nos EUA, nos anos 40 e 50, fez todo esforço possível para que sua arte fosse ''não ilusionística'', neutra, que, enfim, não expressasse nada, que é como ele via o espírito de sua época.
Ou o grupo Guttai, no Japão, na segunda metade dos anos 50, inventando uma arte que, ao se propor antiartística, acrescenta outros parâmetros à própria história da arte.
O importante é se ver livre das limitações impostas pela mistificação e pelo preconceito do que se diz que é belo, bom e justo. Por exemplo, um artista comemorado pela ousadia de seu gesto radical, como é o caso do pintor argentino que se radicou na Itália, Lucio Fontana, que, ao cortar uma tela, abrindo sua superfície plana e dimensional, mostrou um novo campo de ação para a arte, pode também ser visto como um decorador que recheia as bordas de seus rasgos nas telas, assim como um pizzaiollo as bordas de uma pizza, sem perder em nada a exuberância não só de seu gesto, mas de toda a sua arte que não se deixou prender a uma leitura única.
Superar os paradoxos, como o do que é diz o que seja belo ou feio, é uma questão que a arte contemporânea tem se proposto. Como é caso de uma música dodecafônica ou atonal. Ela está além desta discussão simplista. A verdade é que não é nem bom nem ruim saber dessas coisas, mas é importante ter em mente que é possível juntá-las e a partir daí passar a inventar novas harmonias.

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