Um banco e sua história
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 06 de dezembro de 1996
Zeca Corrêa Leite 
Numa casa alugada, na confluência das ruas Quinze de Novembro e Monsenhor Celso, teve início a história do Banco do Estado do Paraná. Foi a 28 de novembro de 1928 que suas portas se abriram pela primeira vez, meses antes da derrocada mundial com a queda da Bolsa de Nova York. Seria a primeira de uma série de marés bravas que a instituição viria a sofrer ao longo de sua história, até conseguir a tão sonhada estabilidade.
Ao completar 68 anos, o Banestado teve sua história contada por um escritor da terra, Túlio Vargas, presidente da Academia Paranaense de Letras. Foram oito meses de mergulho no museu do banco, que resultou no livro Breve Memória do Banestado. Ele conta:
- Comecei a vasculhar atas, relatórios de diretoria, toda documentação hoje existente nos seus arquivos, inclusive trabalhos anteriores de pessoas que passaram pela Assessoria de Comunicação, e que também fizeram pesquisas e elaboraram textos a respeito de sua história.
No extenso material à disposição estavam os originais de uma pesquisa inédita do jornalista Benedito Pires, interessantíssima segundo o escritor, que amarra a trajetória do banco dentro do contexto econômico nacional e mundial de cada época. Talvez não tenha sido publicado pelo seu caráter rigidamente técnico, na base de cifras, relatórios, balancetes.
Breve Memória do Banestado é o oposto. O autor preferiu buscar o lado humano que se esconde sob as paredes da instituição, seus símbolos e números para um mesmo relato histórico. Acabou por descobrir antigos funcionários e suas histórias saborosas. Foi esse o material que usou num texto direcionado ao grande público. Não foi feito para o segmento bancário, explica.
Enfim, essa era a intenção do banco - ter num livro uma visão ao mesmo tempo ampla e condensada dos 68 anos que separam a empresa desde os dias atuais até os ensaios dos primeiros passos, na segunda metade do século. Em meia hora o leitor tem uma visão panorâmica de toda essa trajetória, numa linguagem descontraída, espontânea, diz o autor.
Funcionário nº 2 Túlio Vargas optou em seguir pela trilha dos fatos pitorescos por entender que o banco em si não é uma entidade insensível. Os funcionários lhe dão vida, alma, espírito. E lhe deram coração. Então, sua trajetória foi realmente humanizada por essa contribuição do corpo funcional e de seus diretores.
Para montar o leque de lembranças que vão se acabando com o passar das gerações, Túlio saiu a campo para colher relatos dos empregados mais antigos da empresa. Acabou descobrindo entre eles um ex-diretor, Américo Machado da Luz, que hoje está com 92 anos. Foi o funcionário número 2 do Banco do Estado do Paraná. Lúcido, colaborou sobremaneira com o pesquisador, explicando em detalhes os aspectos que influiam nesta ou naquela decisão, os fatos e as consequências decorrentes, as quedas e as vitórias da instituição há mais de 50 anos.
Tudo isso o Américo viveu de perto, não foi só testemunha. Ele foi protagonista dos acontecimentos, e me ajudou a compreender a complexidade das operações num momento em que o banco esteve para fechar as portas, comenta Vargas sobre a importância das memórias do ex-diretor. Porém, outros depoimentos tiveram o mesmo peso de importância.
Cada qual, na sua época, protagonizou cenas bucólicas, cômicas, surrealistas que aos olhos de hoje soam impossíveis, mas que na época podia não causar tanta estranheza. Como foi o caso da brincadeira de um gerente em Pirai do Sul que comunicou ao contínuo que este seria transferido para outra cidade. Houve comoção geral dos familiares, amigos e lideranças políticas, impedindo a execução de uma ordem que não existia.
Mas Américo Machado da Luz relembra ponto por ponto do drama vivido pelo Banco do Estado do Paraná, quando ainda engatinhava como instituição financeira. A quebra da Bolsa americana em 1929 afetou a economia paranaense. Em dificuldades, o presidente do Estado, Affonso Alves de Camargo, solicitou empréstimo junto ao Banco do Brasil. No ano seguinte veio a cobrança.
Sem ter como pagar, o governo submeteu-se à intervenção da Sumoc - Superintendência da Moeda e do Crédito, que hoje atenderia pelo nome de Banco Central. Foi uma intervenção branca, com a vinda do técnico Paulo Martins Ribeiro para assumir a instituição. A venda de uma fazenda (Monte Alegre) que o banco tomara por empréstimo não honrado - foi parar nas mãos do grupo Monteiro Aranha - representou o início do fortalecimento do banco. Assim ele começou a sair do atoleiro.
Paulistas, gaúchos e paranismo O surgimento do Banco do Estado do Paraná foi de importância capital para o Estado assumir sua feição econômica. Até então as divisas do que se produzia aqui eram controladas por bancos gaúchos e paulistas. O Norte paranaense mantinha sua direção voltada para São Paulo. Os bancos de fora praticamente canalizavam para seus Estados toda a potencialidade econômica do Paraná, conta Túlio Vargas.
A necessidade de criar um organismo local, de amparo principalmente à cafeicultura que estava começando o seu apogeu, motivaram o nascimento do Banestado. Da casa alugada no centro de Curitiba ele expandiu-se abrindo agências dois anos depois em Paranaguá, Jacarezinho e Cambará.
A presença de uma instituição com o nome do Estado gerou um sentimento paranista, explica o escritor. Foi um avanço psicológico muito importante, porque criou nos cidadãos um sentido de auto-estima, autoconfiança. Isso representava que o Estado podia caminhar com seus próprios passos, analisa.
O banco foi o símbolo da arremetida em busca de uma economia eminentemente nossa.
Essas influências subjetivas que ajudaram a formar a história e por ela não são contadas, foram descobertas por Túlio Vargas no correr dos oito meses de pesquisas. Quem detém resquícios desse tempo e colocam luzes aos sentimentos são os antigos funcionários, somando-se ao material que repousa nas gavetas do museu. Mesmo os diretores desconheciam esses aspectos do passado, daí a importância de restabelecer, reconstituir todo esse itinerário, resgatar esses valores que estavam perdidos, sem conhecer a publicidade de sua história.


