‘‘Sempre existirá o risco do desejo, das vontades, dos futuros possíveis. Talvez a despedida esteja sempre presente: do medo, dos sentimentos, da platéia, da vida. Nunca diga nunca, quando você se for, tudo continuará igual: foi você quem foi...’’. A companhia Ballet de Londrina embarcou numa viagem instintiva para criar seu mais novo espetáculo, que estréia hoje na cidade. ‘‘Nunca’’ terá única apresentação às 21 horas, no Cine-Teatro Ouro Verde, antes de iniciar temporada no Circo Funcart na sexta-feira.
Para falar da condição humana, a companhia londrinense buscou em instintos primitivos o caminho para expor medos, culpas e angústias do homem. O canal ideal seria o erotismo, considerado o último instinto humano ainda autêntico. ‘‘Comum a todos, nos faz náufragos de um mesmo barco e, ao mesmo tempo, nos preserva como indivíduos. Portanto, culturalmente distintos’’. Esse clima é acentuado e dosado o tempo todo pela trilha sonora composta por Marco Tureta e Henrique Bittencourt. O espetáculo é classificado como ‘‘não aconselhável para menores de 16 anos’’.
‘‘Nunca’’ também é a metáfora de uma situação. É a rejeição de um cotidiano marcado por experiências recentes vividas pela companhia, em relação a sua própria sobrevivência. É a resposta a um período crítico e de nulidade cultural que assolou Londrina nos últimos anos.
Em pouco mais de uma hora de duração, o espetáculo apresenta na primeira parte a coreografia ‘‘Ethos’’, criada no ano passado. Um intervalo de nove minutos instala o clima para a próxima coreografia, com trocas de roupa e mudança de cena em frente ao público. ‘‘Nunca’’ abre a segunda parte com uma coreografia de 40 minutos, incluindo fragmentos de ‘‘À Cidade’’ e ‘‘Elogio à’’ – trabalhos de 1997 inseridos nessa montagem sob outra ótica.
O Ballet de Londrina sobe ao palco com uma formação, em grande parte, renovada. Entre os 11 bailarinos (sete homens e quatro mulheres), figuram novos integrantes formados pela Escola Municipal de Dança. O elenco traz Aguinaldo Souza, Alessandra Menegazzo, Alexandro Micale, Luciana Lupi, Cláudio de Souza, Marciano Boletti, Marx Bruno, Patrícia Proscêncio, Raphael Panta, Viviane Terrenta e Wagner Rosa.
Em entrevista à Folha 2, Leonardo Ramos conta como foi e quais os caminhos percorridos para criar ‘‘Nunca’’.
O que te levou a criar ‘‘Nunca’’?
A origem é a recente história do Ballet em relação a sua própria sobrevivência diante da crise pela qual Londrina passou. A vontade era fazer algo que se tornasse uma energia de resposta e reação a tudo isso. Resolvi levar em conta a literatura que eu gosto, mais erótica, mais densa. Autores como Oscar Wilde, Jean Genet, Fernando Pessoa, Jorge Luis Borges e Nelson Rodrigues me serviram de inspiração, além de textos de Júlio César Fioravante, de Londrina, que escreveu – a nosso pedido – sobre o tema ‘‘Nunca’’.
E por que a sexualidade seria o caminho para essa resposta?
Tem a ver com humanidade. Olhe para o ser humano: o que nos sobra de mais original é a sexualidade! A sexualidade é o gerador de ‘‘Nunca’’, mas com um cunho homossexual mais forte. Existe a busca da aceitação dos duplos iguais, o enfrentamento do medo desconhecido. A energia maior é a entrega.
Como isso foi impulsionado?
Por angústias, medos. Eu tinha menos medo do que desejo. Não tinha medo das pessoas. Durante o período crítico que passamos, percebi isso. Tinha medo de falar do medo. O desejo de superar era maior. Por isso a idéia de transpor para o espetáculo seria a fecundidade.
De que forma você trabalhou isso na concepção do espetáculo?
O palco em preto e branco, por exemplo, representa a dualidade. A palha de café pintada de preto – no lugar de uvas – remete ao dionisíaco, acentua a cena da orgia. É a mesma fecundidade, só que mais forte para nós, londrinenses. A iluminação marca bem essa coisa da sexualidade.
Nesse espetáculo, o Ballet de Londrina está trabalhando mais as características cênicas, as intenções...
Há mais de três espetáculos, a companhia só investigava o movimento, em busca de uma identidade. Agora que temos alguma coisa já traçada, voltamos a trabalhar com o propósito cênico. Não é teatral, mas tem a ver com a dramaturgia do movimento. Tentei criar ícones que lembrem o erotismo.
A violência aparece como aspecto marcante no contexto...
A violência também é tratada como fetiche, cercada de prazer. O erotismo é um instinto primitivo. A violência é uma forma de devolução para o mundo.
‘‘Nunca’’ – espetáculo do Ballet de Londrina. Estréia hoje, às 21 horas, no Cine-Teatro Ouro Verde (Rua Maranhão, 85), em Londrina. A temporada prossegue de 8 a 24 de junho (sexta a domingo), às 21 horas, no Circo Funcart (Rua Souza Naves, 2380). Direção: Leonardo Ramos. Assistência: Ana Maria Aromatário. Trilha sonora: Marco Tureta e Henrique Bittencourt. Figurinos: Sílvia Garcia. Cenografia: Regina Mello e Wagner Rosa. Orientação teatral: Sílvio Ribeiro. Ingressos a R$ 6,00 (estudantes, contribuintes da Funcart e maiores de 65 anos pagam R$ 3,00). Patrocínio: Lei Municipal de Incentivo à Cultura.

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