Um baile sem fim
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sábado, 05 de julho de 2003
Reportagem Local 
O século XX conheceu de tudo em todos os aspectos. O mundo começava a se tornar menor à medida que a comunicação entre os diferentes povos se intensificava, fluindo nas mais diversas direções. A industrialização avançava, virando de ponta-cabeça as concepções filosóficas e políticas vigentes, que não mais buscavam entender e explicar a sociedade sob o ponto de vista da classe dominante, mas pela perspectiva das massas. Enquanto isso, o ritmo da vida seguia mais rápido e envolvia as nações no redemoinho das guerras e nas oscilações de abismo da economia. Tudo ficou muito descartável e o poder aquisitivo, refletido no consumo insaciável, elevou-se, como um equivalente das festas luxuosas dos antigos nobres, à categoria de símbolo de status.
Em tempos assim, de tudo ou nada, o melhor mesmo era aproveitar enquanto fosse possível e, por conta disso, os salões de baile se abarrotaram, e as pessoas dançaram, como se disso dependesse suas vidas. Foi uma época de grandes orquestras, a idade de ouro das Big Bands - de Duke Ellington a Glenn Miller -, da valorização dos músicos e de seu fôlego na embocadura dos instrumentos de sopro, o momento mágico de enlaçar o par e sair para as pistas, procurando acertar o passo do suingue, do bolero, do foxtrote, do mambo, do tango, do samba... Uma efervescência que começou a declinar a partir da década de 60, à medida que os salões cediam espaço para manifestações sonoras de outro tipo, com base em guitarras elétricas e em equipamentos amplificadores de som cada vez mais poderosos.
''A partir do período que, aqui no Brasil, ficou conhecido como a Jovem Guarda'', explica o músico Vítor Hugo Gorni, integrante da Orquestra Sinfônica da UEL e assessor artístico do Festival de Música de Londrina, ''começou a se perder a referência de som, passando-se a exigir cada vez mais volume, sendo que para dançar'', ressalta, ''não é preciso nada disso, basta a boa música''. Filho de Altino Gorni que, na década de 50, fez muita gente bailar ao som de ''Gorni e sua Orquestra'', Vítor lembra que ''naquela época, sem equipamentos como os de hoje, usava-se apenas uma pequena caixa de som para a voz e outra, para o violão''. O resultado era um som natural, acústico, que há alguns anos, inclusive, vem sendo revalorizado como se se tratasse de algo muito incomum.
Esse período, que vai do surgimento do rock and roll à difusão massiva dos sons chamados eletrônicos e tecnológicos, que marcam o fim dos anos 80, pareceu-se, para a dança de salão, a um grande intervalo de baile. Alguns pares ainda insistiam em dançar nos espaços tradicionais, mas a maioria preferia se soltar, sob luzes estroboscópicas, nas discotecas. Pouco a pouco, porém, os salões, as danças de casal e a música instrumental voltaram a suscitar interesse. Hoje, como observa Vítor, ''já se percebe um aumento da curiosidade dos jovens pelos instrumentos de sopro, o que é muito bom, pois os leva a ter vontade de tocar em um grupo orquestral''. E à medida que novas orquestras, mesmo que pequenas, se formam, mais pessoas têm oportunidade de ouvi-las. ''E quem gosta de dançar e dança uma vez ao som de uma orquestra'', diz Vítor, com convicção, ''não vai mais querer dançar com outro tipo de acompanhamento musical''.


