É raro o dramaturgo Mário Bortolotto cumprir agendas modestas por aqui. Quando vem à sua cidade natal apresentar algum novo trabalho, invariavelmente ocupa-se de uma intensa programação durante a visita. Não será diferente esta semana, quando ele volta a Londrina para mostrar sua mais recente peça, ''Homens, Santos e Desertores''.
A peça será apresentada hoje e amanhã, a partir de 20h30, no Teatro Zaqueu de Melo. Também hoje, depois do espetáculo, Mário vai ao Bar Valentino lançar o livro ''Bagana na Chuva''. E amanhã, também após o espetáculo, ele volta ao Valentino para fazer uma participação especial no show de música e poesia do grupo Benditos Energúmenos.
O artista está radicado em São Paulo desde 1996, quando foi tentar a sorte acompanhado de seu grupo Cemitério de Automóveis. A mudança trouxe prestígio ao autor, que conquistou público e crítica com suas montagens influenciadas pela literatura beat e pelo cinema. ''Homens, Santos e Desertores'' retoma a linhagem de personagens desajustados que tanto povoam sua obra.
O texto fala do rito de passagem da adolescência para a vida adulta. No palco, apenas dois personagens, ambos padecendo do sentimento de inadequação no mundo: um garoto revoltado (Gabriel Pinheiro) e um homem de meia-idade amargurado (o próprio autor). O menino é largadão na vida. Seu pai pouco sabe do que fez, faz ou vai fazer da vida. No momento está em algum lugar do México com um amigo motociclista.
A mãe, abandonada e solitária, não consegue ajudar o rapaz. O jovem protagonista não tem amigos, nem namorada e não parece se interessar por nada que os garotos de sua idade demonstram interesse até que encontra um ex-seminarista que vive recluso preferindo a companhia de livros ao invés de pessoas. O garoto se identifica com o homem e passa a frequentar diariamente sua casa, mesmo contra a vontade do anfitrião.
A peça se resume aos diálogos dos dois, que vão se sentindo cada vez mais à vontade com a presença um do outro e revelando aspectos cada vez mais dolorosos de suas vidas, até um clímax emocionante. ''Homens, Santos e Desertores'' tem direção de Fernanda D'umbra. Após o espetáculo, Mário desloca-se ao Bar Valentino para uma sessão de autógrafos de seu romance ''Bagana na Chuva''.
O livro foi publicado há dois anos pela editora Ciência do Acidente. É estruturado na forma de fragmentos de histórias, a partir de memórias do narrador, o jovem Cardan, um alter-ego do autor. Mário, que nasceu em 1962 no bairro Jardim do Sol, coloca Londrina como cenário de ''Bagana na Chuva''. ''Londrina é onde os meninos se sentem à vontade, com seus coturnos sem cadarços, os sofás sem estofado, suas barrigas precocemente flácidas, o cabelo mal cortado, suas discussões sobre nada que não levam a lugar algum'' escreve numa passagem. A sessão de autógrafos está prevista para às 22 horas.
Amanhã, também depois da peça, o autor volta ao Bar Valentino, dessa vez para participar do show dos Benditos Energúmenos. O grupo existe há três anos, formado pela produtora e editora Christine Vianna com o objetivo de recitar poesias de autores paranaenses sob arranjos musicais. No palco, ela interpreta os poemas acompanhados pelos músicos Guilherme Constantini (guitarra), Rodrigo Amadeu (guitarra) e Denise Ferraz (violino).
O repertório é composto principalmente de poesia londrinense de autores como Augusto Silva, Antônio Ubirajara Lopes, Bernardo Pellegrini, Célia Musili, Karen Debértolis, Marcelo Montenegro, Márcio Américo, Maurício Arruda Mendonça, Marcos Losnak, Nelson Capucho, Rogério Ivano, Rodrigo Garcia Lopes e o próprio Mário Bortolotto.
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