Um autor em busca de si mesmo
PUBLICAÇÃO
sábado, 30 de setembro de 2000
Ubiratan Brasil Agência Estado 
Quando deu entrada em um hospital da Flórida para morrer, em 21 de outubro de 1969, Jack Kerouac tinha 47 anos, mas aparentava muito mais. A ex-esperança do futebol americano (um de seus sonhos de infância) tinha engordado.
O escritor mulherengo estava inchado pelo álcool e, sobre uma última foto, o poeta Allen Ginsberg escreveu: Jack parecia-se bastante com seu pai, tinha a corpulência de W.C. Fields e era percorrido por um frêmito mortal. O laudo médico atestava hemorragia gastrointestinal massiva. Kerouac foi enterrado a 24 de outubro em Lowell, Massachusets, sua cidade natal.
A sensação da morte acompanhava-o, porém, havia muito tempo. Jack Kerouac era um autêntico louco furioso, cuja necessidade urgente de solidão (principalmente depois do sucesso) imperava e dominava sua vida. Apegava-se a uma tristeza plácida entre o bourbon (O álcool é uma droga doce), estimulantes, mantras budistas e reminiscências de sua educação católica.
A fama instântanea provocada por On the Road (livro que amargou seis anos de recusa até ser publicado em 1957 e virar best seller), acompanhada de uma crítica feroz aos membros da beat generation (termo que ele cunhou), trouxe consequências devastadoras sobre Kerouac, que passaria a se afastar das estradas que o celebrizaram (curiosamente não tinha carteira de habilitação), isolando-se no quarto da casa de sua mãe e se encharcando de vinho barato.
O que o incomodava eram mais as críticas ao seu estilo de vida que ao seu trabalho, cuja seriedade era ignorada ou desmerecida - o escritor Truman Capote, por exemplo, chegou a dizer que o que Kerouac fazia não era literatura, mas datilografia. Kerouac, assim como os demais escritores beats trouxe mudanças significativas à literatura americana, como a abertura para outras culturas, a introdução do zen e do budismo, o resgate dos mitos indígenas e a recuperação da tradição oral da poesia.
Kerouac explicava que seu método de composição tomava como base a respiração e a improvisação do jazz e do bop, ou seja, nada de pausa para pensar a palavra certa, mas uma acumulação infantil e até escatológica de palavras concentradas. Ele queria sua linguagem capturando o pensamento em movimento com o máximo de fidelidade. Com isso, revolucionou a maneira de viver e pensar de milhões de pessoas, a começar por Bob Dylan, que se tornou seu fã a partir de 1959. O mesmo aconteceria com Tom Waits, Jim Jamursch, Dennis Hopper e outros.
Apesar da consagração popular, Kerouac buscava a solidão. Em 1957, consegue um trabalho: vigia de incêndios no alto do Monte Hazomeen, um pico que domina a grande floresta do Estado de Washington. Lá, ele meditava em busca do significado da existência. Era um homem de grandes aspirações, mas corroído por dúvidas atrozes.
Na casa da mãe, onde se refugiou, era constantemente vigiado por ela, uma ex-faxineira que rezava diariamente pela alma do filho vadio. Proibia-o ainda de levar para a casa suas conquistas ocasionais (Isso não é católico!
repreendia) e, quando podia, esvaziava seus bolsos para impedi-lo de praticar alguma malandragem.
Pouco antes de sua morte, Kerouac manifestou-se favorável à intervenção americana no Vietnã, num estranho impulso de patriotismo. O grande denunciador do obscurantismo americano dos anos 50 deixava-se levar por propostas anti-semitas, racistas e homófobas. Amargo e exaltado, ele cultivava a ambiguidade. Terminou no ostracismo, deixando US$ 91 para seus herdeiros.


