São Paulo - Ter 20 anos e não poder eleger um presidente era algo que Tiago Santiago não conseguia aceitar em 1984. Para ele, o cenário ideal para o Brasil era a democracia. Mesmo assim, ele não foi às ruas contestar, nem cogitou a luta armada. Mas hoje, aos 47 anos, resgata essas memórias no folhetim ‘‘Amor e Revolução’’ (SBT), que já tem deixado parte da classe militar enfurecida - houve até abaixo-assinado circulando na internet. Nesta entrevista, ele falou de sua simpatia pela esquerda, da fase na faculdade e seu gosto por festas, regadas a pouco álcool e sem drogas.

Por que uma novela de ditadura nos dias de hoje?
Tiago Santiago - É um projeto antigo. Na época, não sabia que teria a Comissão da Verdade, que a Dilma (Rousseff) seria eleita. Eu quis fazer a novela porque esses conflitos da época da ditadura e as perseguições, que são boas para a audiência, dão um ótimo caldo. E outra: as feridas da ditadura ainda não foram cicatrizadas. A polícia brasileira ainda adota práticas de extermínio. Aqui, não existe a investigação inteligente e técnica. Só é usada a tortura, de colocar no pau de arara e dar porrada.

Você nasceu em 1963, um ano antes do Golpe. Sua família sofreu tortura ou foi perseguida?
T.S. - Com 20 anos, o presidente do Brasil era um militar e eu não gostava dessa coisa de não poder votar, invejava as eleições nos EUA. Meu irmão, como era ativista político, um dia até chegou em casa todo machucado por tomar porrada de polícia, numa manifestação. Até participei de algumas convenções, mas eu queria era o teatro.

E você não sentia medo de ir e vir, optando pelo teatro?
T.S. - Ainda em 1984, quando a gente foi fazer ‘‘A Lira dos 20 anos’’, houve ameaça de bomba no teatro onde estávamos. Mas eu e minha família nunca sofremos ameaças mais fortes. Por medo, meus pais até se desfizeram de alguns textos de esquerda. Na rua, andei um tempo acompanhado porque tiveram aqueles casos de sequestro de crianças, né? Mas, aos 10 anos, eu já ia para o inglês sozinho. Hoje em dia, eu não sei se deixaria o meu filho andar assim.

Você é muito protetor?
T.S. - Sou um pai presente, preocupado com a segurança dele, mas não sou ‘noiado’. Quando estou em São Paulo e ele no Rio, com a mãe, falamos quase uma hora por Skype. No momento, estamos numa crise conjugal, em casas separadas, mas somos muito amigos.

Sua mãe contava histórias para você dormir. Faz o mesmo?
T.S. - Ainda não conto para ele em forma de novela, sabe? Deixando um pouquinho de história para o dia seguinte, como a minha mãe fazia. Mas conto, sim. Muitas vezes, ele dorme antes do final...

Voltando à ditadura, foi o contato com os textos subversivos que fez você estudar sociologia?
T.S. - Então, na hora de prestar vestibular, eu não tinha a menor ideia do que iria fazer. Quando fui escolher, eu rezei, peguei aquele livro de carreiras, abri e coloquei o dedo. Juro, estava ali ‘‘ciências sociais’’. Pensei: ‘‘Que interessante.’’ Daí, fui ver as especializações. Não tinha nem ideia do que era antropologia, mas me interessei e falei: ‘‘É isso que vou fazer.’’ Achei que aquilo seria útil para mim, para ser ator, autor ou diplomata. Afinal, eu já falava inglês, francês...

E como foi a faculdade?
T.S. - Foi ótima. Eu a dividia com as coisas da carreira, o teatro. Até que tranquei o curso de 84 a 87 - três anos em que fiz novela da Globo. Eu estava meio sem dinheiro, sem saber o que fazer, e daí voltei para a faculdade para tentar uma bolsa de monitoria. Com 20 anos, os pais vão secando a fonte. Meu pai perdeu muito dinheiro com o Plano Cruzado. Eu não podia mais brincar de ser artista. Daí, pensei: ‘‘Vou terminar a faculdade’’. Depois, me direcionei para ser autor.

E quando você começou a se dar bem na Globo? O primeiro salário, você o levou para casa?
T.S. - Na época, o salário era muito pouquinho. Sempre fui muito presenteador. Depois de ‘‘Vamp’’ (1991), lembro que presenteei, e muito, minha família. Inclusive, resgatei a carreira da minha mãe (a atriz Helena Xavier) e a chamei para fazer ‘‘A Escrava Isaura’’ (2004), na Record. Depois, ela se tornou contratada da emissora.
Foi uma alegria muito grande, a carreira dela estava parada desde a década de 60.

Por que você saiu da Globo?
T.S. - Então, eu vi que, se fosse esperar a minha chance, iria demorar muito. Fiz anos de ‘‘Você Decide’’, implantei o ‘‘Linha Direta’’, escrevi ‘‘Brava Gente’’ e, com o Aguinaldo Silva, escrevi dois especiais que não foram ao ar. Um tinha a ver com a minissérie ‘‘Sobrenatural’’. Escrevemos e nunca foi ao ar. Era a história de uma pessoa muito do mal, que buscava o novo Cristo e matava crianças. E uma outra minissérie de 16 capítulos sobre um policial incorruptível. Com o Aguinaldo na Globo, vamos botar uma pressão. Se a emissora não produzir, vamos oferecer para outro canal. Depois, o Lombardi (novelista) tinha proposto que eu fizesse o remake de ‘‘O Profeta’’, da Ivani Ribeiro. Chegaram a cogitar e desistiriam. Isso foi um banho de água fria.

Não ficou com medo de ir para uma emissora como a Record, que engatinhava na dramaturgia?
T.S. - Peguei uma emissora que dava três pontos de média e, no último capítulo de ‘‘A Escrava Isaura’’ (2004), fizemos dar 20 pontos. Depois, com ‘‘Prova de Amor’’ (2005), passei na frente do ‘‘Jornal Nacional’’ no Ibope. Eu dava pulos de alegria por ficar na frente da Globo.

Alguma vez sofreu interferência do bispo Edir Macedo?
T.S. - Sim. Eu me lembro que, em ‘‘Prova de Amor’’, eu propus uma relação homoafetiva e não evolui nessa relação porque a direção argumentou que a classificação não seria apropriada. Mas lá tive liberdade. Eles já tinham até aceitado a novela da ditadura, mas a proposta salarial do Silvio foi muito boa.

Então, você saiu pelo salário?
T.S. - Sempre ganhei por audiência, mas quando acabou ‘‘Os Mutantes’’ eu ganharia muito menos porque ficaria fora do ar. Daí, mandei um recado para o SBT dizendo que estava disposto a ouvir uma proposta. O Silvio (Santos) fez uma proposta irrecusável, era o dobro do que eu ganhava. Assinei contrato na casa dele, num jantar com ele e a mulher (Íris Abravanel). Ele até me recebeu no portão!

Você está envolvido com o trabalho desde muito jovem. Nunca teve uma fase baladeiro?
T.S. - No teatro, a gente sempre ia para festas. Era da turma do Alexandre Frota, Malu Mader... Sempre fui festeiro! E como até os 40 anos eu era colaborador, não tinha tanta responsabilidade, né? Agora, como autor titular, não dá.

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