Um Auto de Natal pelas estradas do Brasil
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domingo, 04 de janeiro de 2009
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
Um Auto de Natal pelas estradas do Brasil levou dois irmãos, músicos londrinenses, a descobriram um outro país. Uma nação de Jacabina (BA) e São Raimundo Nonato (PI), cidades do interior nordestino, roteiro da turnê teatral, retrato brasileiro registrado em quase 30 dias de viagem.
Com uma superprodução, que incluiu uma carreta/palco e outra de apoio para o transporte do gerador, equipamentos, instrumentos, cenários e figurinos; um motorhome/hotel chamado Exploranter; uma van para transportar a equipe técnica e ainda um veículo utilitário para a produção e suporte logístico, a companhia Teatro de Tábuas, de Campinas (SP), circulou por 18 cidades de seis Estados brasileiros: Mato Grosso, Goiás, Bahia, Piauí, Minas Gerais e São Paulo.
Os irmãos londrinenses Sara e Vitor Delallo, que se apresentaram a 9 metros de altura, num palco do tamanho de um prédio de três andares, integraram o elenco de 25 pessoas, reunindo artistas de teatro, circo e músicos. No total, 50 pessoas formavam a equipe, que viajou em comboio.
O espetáculo ''Histórias de Natal'', realizado com apoio da Lei Rouanet, mudou a rotina de pequenas cidades, como Angico dos Dias (BA).
Povoado com apenas 800 habitantes, mais de mil moradores da região foram atraídos pela luz do Natal do Teatro de Tábuas, que iluminou com sonhos uma região cercada de pobreza.
''A melhor lembrança foi ver o brilho nos olhos daquela gente que nunca teve a oportunidade de ir ao teatro. O palco tinha três andares, como se fossem janelas de apartamentos, onde aconteciam as encenações. Os músicos ficavam no último andar. Me preocupei bastante com a altura, mas depois você acostuma e agradeci por poder ter uma visão privilegiada das cidades em que nos apresentamos'', lembra Sara Delallo, multinstrumentista que, durante a turnê, tocou contrabaixo.
O convite para os irmãos londrinenses veio do ex-professor do Curso de Música da Universidade Estadual de Londrina (UEL), José Carlos Pires, com quem Sara teve aulas.
Radicado em Campinas, sede da companhia, Pires assinou a direção musical do Auto de Natal, levando em consideração para a escolha dos londrinenses a formação musical na UEL, que considera uma das melhores do País pela linha pedagógica.
''Uma das dificuldades da produção foi tocar sem ver a atuação dos atores porque estávamos sobre eles no último andar do palco. Uma das cenas mais difíceis para mim foi um diálogo entre o violoncelo e um ator. Tinha que dialogar com a cena sem ver'', comenta Vitor Delallo, que tocou violoncelo e bateria na peça.
Sob a direção artística e coordenadação geral de Jorge Luís Braz, o elenco pôs o pé na estrada, logo após o último ensaio geral, na madrugada de 25 de novembro.
A primeira parada foi em Vila Bela da Santíssima Trindade (MT), passando por cidades e povoados como Jacobina, Irecê, Luís Eduardo Magalhães (BA) e São Raimundo Nonato (PI), conhecida mundialmente por ser um portal para antigas civilizações, região da Serra da Capivara, onde estão 400 sítios arqueológicos.
Sara conta que as dificuldades de alguns trechos da viagem por estradas de terra, transporte de balsa e pontes caídas, fizeram com que trajetos de 300 quilômetros fossem percorridos em até 14 horas de viagem.
''Em alguns lugares, a caixa d'água da cidade era tão baixa que não conseguíamos fazer a captação. Outras não tinham nem luz para a própria população e chegávamos lá com um espetáculo todo iluminado e um show pirotécnico. Foi fabuloso. Imagine cidades simples que não têm um prédio e a gente montar um palco da altura de um edifício. Eles ficavam boquiabertos. Um dia, uma senhorinha apareceu com uma sacolinha na mão, querendo fugir com a gente'', comenta a londrinense.
Sara conta que o hotel sobre rodas era bastante confortável, apesar do espaço reduzido, com quadriliches dos dois lados, onde a equipe dormia. ''Foram dias de convivência intensa, muito bons. Ganhamos novos amigos e reencontramos o música Zepa, que também estudou na UEL e hoje mora em São Paulo e também integrou o elenco'', afirma Vitor.
Para Sara, a turnê abriu novas possibilidades profissionais. Ela agora pensa em criar um estúdio musical itinerante e voltar a pôr o pé na estrada.
''A gente compôs todas as músicas, com estilos e gêneros diferentes, que iam do rock à música minimalista. Para mim, a viagem criou outra visão sobre a música'', confessa Vitor.


