Poderia muito bem ser uma fábula. Assim: era uma vez um jovem ator americano aspirante à fama e à fortuna. Nas andanças pelo mundo, acabou na Itália, nas garras de um leão. A fera resolveu adotar o principiante, e ensinou a ele a arte da caça. O aprendiz se deu muito bem, aperfeiçoou os dotes do mestre, voltou para casa, aprendeu muito mais com muitos outros, ganhou fama e fortuna. Como prêmio, recebe agora o troféu que simboliza o primeiro mestre.
Talvez não existisse agora o Leone d’Oro à carreira de Clint Eastwood se há 36 anos não houvesse Sergio Leone, o diretor que forjou o western spaghetti, ou o bangue-bangue à italiana. A trilogia com o ator - ‘‘Por Um Punhado de Dólares’’, ‘‘Por Alguns Dólares Mais’’ e ‘‘Três Homens em Conflito’’ - marcaria Clint para sempre. E com certeza deu a ele as ferramentas básicas para o ofício por trás das câmeras. Aprendeu muito bem as lições, este cowboy individualista, capaz de passear por um variado repertório de gêneros sempre com desenvoltura, do western ao policial, do drama romântico e intimista à aventura espacial grandiloquente.
Aos 70 anos, estreando em Veneza, Clint Eastwood é uma das poucas lendas hollywoodianas remanescentes e ainda em atividade na indústria. O último expoente de um cinema clássico, que no entanto mantém ativa a visão de verdadeiro autor. Numa carreira que se extende já por 45 anos, abrigando os papéis de ator, diretor, produtor, roteirista (bissexto) e compositor, Eastwood sempre soube conjugar a determinação de um sólido projeto pessoal com a capacidade de se comunicar com o grande público dos mais diferentes países.
O prêmio entregue ontem ao homem de cinema honra uma carreira iniciada na surdina em meados dos anos 50, amadurecida durante a parceria com Sergio Leone e continuada até hoje com total autonomia, depois de um percurso feito com um misto de respeito pela tradição clássica e pela insubmissão a esta mesma tradição. Como ator e diretor, Clint se mantém fiel à mitologia do herói desiludido, tomando partido dos sonhadores, perdedores e marginalizados que tiveram sempre papel fundamental na história do cinema americano.
Embora eventualmente aderindo a certos gêneros e estruturas, Eastwood jamais deixou de utilizar o cinema para revelar e denunciar a hipocrisia e a corrupção do sistema social, e para satirizar o absurdo de certas convenções. E faz isso ironizando sua própria imagem de ‘‘macho man’’, refletindo sobre as consequências da violência, tanto para vítimas quanto para quem as submete.
É quase certo que a força, o carisma e a longevidade artística de Clint Eastwood se devam a esta dualidade paradoxal na aparência - ele é, a um só tempo, um ícone de Hollywood e uma de suas mais sensíveis e discretas consciências críticas. Um prêmio justíssimo, este que Veneza confere a Clint.

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