Um editor encontrou um relato inédito escrito pelo dramaturgo marxista Bertold Brecht, depois de um breve e imprevisto encontro com Adolf Hitler em 1922.
O autor de ‘‘Mãe coragem’’ (1941) e ‘‘A ópera dos três vinténs’’ (1928) intitulou este relato, escrito em inglês e destinado à revista norte-americana ‘‘Reader’s Digest’’, ‘‘Um ator de talento’’. Nunca publicadas, estas quatro folhas datilografadas estavam há mais de meio século ‘‘enterradas’’ nos arquivos Bertold Brecht de Berlim. A obra foi ‘‘exumada’’ por Jens Kopf, um dos editores do grande dramaturgo.
Brecht relata em primeira pessoa seu encontro com o futuro ditador em um café de Munique em março ou abril de 1922. Estava com outros escritores, entre eles Lion Feuchtwanger, o autor de ‘‘O Judeu Suss’’ (1925), quando, na mesa vizinha, se sentou ‘‘um homem de aparência comum, mas com um semblante terrivelmente esquivo, uma pele estragada e um modo de vestir desalinhado’’.
Era ‘‘um tal de Hitler’’, que conversava ‘‘com vários homens que pareciam oficiais à paisana’’, prossegue Brecht, que se exilaria em 1933.
Hitler - escreve - levantou-se de repente da cadeira para ajudar Feuchtwanger, um escritor judeu, a colocar o sobretudo. ‘‘Era um agitador local que acabava de realizar uma reunião de massas contra os judeus em um clube da periferia’’ de Munique, acrescenta.
A autenticidade deste episódio extraordinário ainda é duvidosa: ‘‘Não consegui estabelecer até agora se esta história tinha ou não fundamento’’, admite o editor.
Mas ainda resta um ponto a ser esclarecido. Na época em que Brecht situa a cena, ele não se encontrava em Munique, mas em Berlim. Assim, poderia ter ouvido o relato da boca de Feuchtwanger e recordá-lo durante seu exílio nos Estados Unidos.
Segundo a narração de Brecht, Hitler falava na mesa vizinha sobre os cursos de expressão e de arte dramática que estava fazendo com Basil, um velho ator, para melhorar sua elocução e seus gestos.
‘‘Fui uma vez a uma dessas manifestações de massa’’, conta Brecht, que descreve a cena com riqueza de detalhes e o discurso do aprendiz de ditador.
‘‘Sua brincadeira de ator era convincente. Os oito marcos que pagava por hora de aula a Basil foram bem empregados’’, afirma o dramaturgo.
Este achado literário-histórico será publicado daqui a alguns meses na Alemanha dentro do vigésimo volume das obras completas de Brecht.

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