Um ator de talento
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 10 de dezembro de 1996
France Presse 
Um editor encontrou um relato inédito escrito pelo dramaturgo marxista Bertold Brecht, depois de um breve e imprevisto encontro com Adolf Hitler em 1922.
O autor de Mãe coragem (1941) e A ópera dos três vinténs (1928) intitulou este relato, escrito em inglês e destinado à revista norte-americana Readers Digest, Um ator de talento. Nunca publicadas, estas quatro folhas datilografadas estavam há mais de meio século enterradas nos arquivos Bertold Brecht de Berlim. A obra foi exumada por Jens Kopf, um dos editores do grande dramaturgo.
Brecht relata em primeira pessoa seu encontro com o futuro ditador em um café de Munique em março ou abril de 1922. Estava com outros escritores, entre eles Lion Feuchtwanger, o autor de O Judeu Suss (1925), quando, na mesa vizinha, se sentou um homem de aparência comum, mas com um semblante terrivelmente esquivo, uma pele estragada e um modo de vestir desalinhado.
Era um tal de Hitler, que conversava com vários homens que pareciam oficiais à paisana, prossegue Brecht, que se exilaria em 1933.
Hitler - escreve - levantou-se de repente da cadeira para ajudar Feuchtwanger, um escritor judeu, a colocar o sobretudo. Era um agitador local que acabava de realizar uma reunião de massas contra os judeus em um clube da periferia de Munique, acrescenta.
A autenticidade deste episódio extraordinário ainda é duvidosa: Não consegui estabelecer até agora se esta história tinha ou não fundamento, admite o editor.
Mas ainda resta um ponto a ser esclarecido. Na época em que Brecht situa a cena, ele não se encontrava em Munique, mas em Berlim. Assim, poderia ter ouvido o relato da boca de Feuchtwanger e recordá-lo durante seu exílio nos Estados Unidos.
Segundo a narração de Brecht, Hitler falava na mesa vizinha sobre os cursos de expressão e de arte dramática que estava fazendo com Basil, um velho ator, para melhorar sua elocução e seus gestos.
Fui uma vez a uma dessas manifestações de massa, conta Brecht, que descreve a cena com riqueza de detalhes e o discurso do aprendiz de ditador.
Sua brincadeira de ator era convincente. Os oito marcos que pagava por hora de aula a Basil foram bem empregados, afirma o dramaturgo.
Este achado literário-histórico será publicado daqui a alguns meses na Alemanha dentro do vigésimo volume das obras completas de Brecht.


