Baseado em uma novela gráfica marginal, e com a profundidade de uma folha de papel, ''O Procurado'' é a única estréia nacional programada para hoje (confira a programação de cinema na página 2). Para quem gosta de déjà vu (aquele filme homônimo com Denzel Washington mas principalmente o déjà vu mesmo, isto que os franceses chamam de já visto, repetição e por aí vai), o lançamento é um prato cheio de ingredientes vazios.
Wesley Gibson (James McAvoy - este rapaz de ''Desejo e Reparação'' ainda vai se dar bem, apesar de experiências como esta) é um homem simbolicamente castrado. Diariamente se humilha num trabalho que detesta. A noiva o trai com o melhor amigo. Nada disto o incomoda, e tudo por culpa do pai que o abandonou recém-nascido. A vida dele muda quando descobre que o pai fugiu para atender o apelo de uma sociedade secreta de assassinos. Tudo isto é revelado pela bela assassina Fox (Angelina Jolie) durante um acrobático tiroteio encenado num supermercado, com inequívocos toques de ''Matrix''. Aliás, o semi-cult dos irmãos Wachovsky assombra formalmente este ''Procurado''.
Wes recebe treinamento na tal academia de assassinos, e neste processo parece se dar bem e recupera a vontade de viver. O filme é basicamente uma fantasia de fortalecimento pessoal através do exercício da violência sem consequências morais. A felicidade é o cano fumegante de uma pistola. Os executados pelos assassinos profissionais são identificados por um código secreto oculto numa tela supervisionada por Sloan (Morgan Freeman), o líder do grupo. Wes é designado para matar o renegado Cross (Thomas Kretschmann) e vingar seu pai.
Dirigido por Timur Bekmambetov, russo festejado internacionalmente por dois filmes de exasperada ação gráfica, ''Guardiões da Noite'' e ''Guardiões do Dia'', e logo cooptado por Hollywood, ''O Procurado'' se enquadra nos perfis, entre outros, de Michael Bay e Tony Scott, exímios promotores de ataques sensoriais.
A ação do filme é tão divorciada da realidade física que se converte em imenso vazio manipulado digitalmente. Um filme funciona de fato quando cria um sentido de realidade congruente e crível. Este universo aqui é falso como moeda de três reais, e está a cada momento nos fazendo lembrar de seu artificialismo. É um outro ''Matrix'', mas sem seu (discutível) lado filosófico. É mais um ''Clube da Luta'', mas com zero de ideologia.
E há ainda a questão do ''vigilantismo'', vocês sabem, aquela história fascistóide de que, quando falham as instituições, a lei, a justiça, então as vítimas devem tomar suas próprias providências punitivas. Neste procedimento provocativo desta ''escola de assassinos'', o espectador aprecia vasto e variado cardápio de brutalidades e exercícios de violência. Há algumas súbitas guinadas pretensamente moralistas no roteiro, o que acentua a idéia de cinismo e hipocrisia. (C.E.L.J.)

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