‘‘Mario era um cidadão recluso, de hábitos e comportamentos excêntricos; também uma figura da cidade do Rio de Janeiro. Tanto que chegou a pensar em escrever um guia sentimental das ruas e logradouros públicos cariocas, assunto que dizia conhecer como poucos. ‘Meu mundo vai do Jockey Club ao Country’, costumava repetir, nos últimos anos.
Mas ele conhecia como poucos os segredos do Rio. Os médicos que o assistiram pela última vez acham que se deixou morrer. O elegante e discreto grã-fino não poderia exibir, na piscina do Country, onde gostava de tomar banho de sol à tarde, a cicatriz deixada no ventre depois de uma operação para debelar um aneurisma da aorda abdominal.
Mario Reis pode ter morrido de vaidade. Mas a voz vibra robusta como que sulcada ontem na matriz dos discos, emitida com esmero e gosto apurado. Nada sobrou além dela, do timbre amigável de tenor, depois barítono, que encantava por escandir as palavras, dividindo-as como ninguém quando começou, em 1928. Esta é a data em que as gravações elétricas se impuseram no mercado e o canto tipicamente brasileiro surgia com Mario Reis.
Sua voz deu novo rumo à história da interpretação do samba; sincopou-a um pouco mais para lhe fornecer leveza. Um sussuro elétrico. Orgulhava-se de ser um pioneiro; tinha consciência de seu papel transformador.’’

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