Mario CesarNas últimas semanas, quem atravessa a praça Floriano Peixoto, no centro de Londrina, se surpreende com um senhor, muito velhinho, vendendo quadros de paisagens. É, Ivo Mário Clementoni, o ‘‘seu Ivo’’, como os amigos costumam chamar, que completou há uma semana, 90 anos. A qualidade dos quadros é discutível, seu Ivo usa tinta sintética e duratex. E a moldura é revestida com folha de ouro. ‘‘Dezoito quilates’’, enfatiza. Mas ele se justifica e diz que usa este material para não encarecer o preço dos quadros. ‘‘O mais caro custa R$ 10,00’’, avisa.
Seu Ivo conta que pensa em usar tinta a óleo, tela e moldura de madeira. ‘‘Quem sabe assim as pessoas dão mais valor nos meus quadros’’, confessa. Em sua casa estão os ‘‘melhores quadros’’, pintados ao longo de vários anos.
Já faz uns 15 dias que seu Ivo resolveu ir para a praça vender seus quadros. A sugestão foi da família (seu Ivo mora com o filho) e até agora conseguiu vender cinco trabalhos. ‘‘As pessoas param, olham e dizem que gostam. Mas não compram porque não têm dinheiro’’, explica ele.
Seu Ivo conta que sempre trabalhou com pintura. Aprendeu com o pai, que veio de Terna, na Itália. Ele já não se lembra mais em que ano. ‘‘Faz muito tempo’’, diz. Nascido em Ouro Fino, Minas Gerais, seu Ivo era garotinho e já ajudava o pai, também pintor, com as latinhas de tinta. ‘‘Meu pai pintava igrejas’’, conta.
Mario CesarIvo Mário Clementoni: boa conversa, quadros com paisagens e vontade de pintar até o fimParar de trabalhar? Não, seu Ivo nunca pensou nisso. ‘‘Na praça eu me distraio conversando com as pessoas’’, diz. Parar de pintar? Nunca. ‘‘Até o dia que eu tiver forças eu vou pintar’’, completa. E seu Ivo tem planos: ‘‘Eu estou esperando a eleição passar e a situação se resolver. Eu quero fazer um retrato do Presidente da República e mandar para ele’’. O senhor gosta do Fernando Henrique? ‘‘Gosto muito, ele é um bom presidente.’’
A simpatia de seu Ivo já rendeu elogios. Hélio Ota, artesão que também trabalha na praça, se diz seu fã. ‘‘É um presente ele trabalhar na minha frente’’, diz Hélio, que prefere não comentar a qualidade dos quadros. ‘‘Eu não entendo muito de pintura’’, completa.
A rotina de seu Ivo é pintar. Na praça só fica das duas da tarde até quatro e meia. Começa a cuidar de seus quadros cedo, oito da manhã. ‘‘Eu trabalho até tarde e, às vezes, até perco a hora das refeições’’, conta. O que ele não esquece é da batidinha de limão antes do almoço. Com pinga? ‘‘Com pinga, mas eu não tomo ela pura’’, confessa meio risonho.
Na sexta-feira, seu Ivo não foi para a praça. Por quê? ‘‘Por causa do futebol.’’ É outra de suas paixões. Adora a Copa do Mundo e acha que se ‘‘se o Zagallo tiver juízo o Brasil ganha’’. Mas o que é ter juízo? ‘‘É colocar o Edmundo. Todo mundo está querendo o Edmundo’’, arrisca seu Ivo, fanático torcedor do São Paulo, mas com uma paixão escondida pelo Palmeiras, que ele não revela para a família, mas deixou transparecer na entrevista. Coisa de torcedor. Coisa de artista...

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