Arthur Bispo do Rosário, desnecessário lembrar, passou sua vida longe das discussões teóricas a respeito da nova figuração e da degradação da imagem neste século. Com certeza jamais ouviu falar de bricoleurs, de Schwitters ou de Arman. No entanto, divide com eles um parentesco estético. Bispo do Rosário foi vanguarda sem saber.
Como Arman, ele tinha mania de colecionar talheres e forjar com eles uma nova ordem no mundo. Argan diria que, como o francês Arman, Bispo do Rosário reproduzia o comportamento do homem primitivo, qual seja, o de acumular tranqueiras ou destruir tudo o que lhe atrapalha. Essa apropriação, de caráter fenomênico, segundo o crítico italiano, é típica do homem pré-histórico, que não tinha em mente o projeto de seu próprio desenvolvimento. Em outras palavras, Bispo do Rosário queria se apropriar não da matéria, mas da memória dessa matéria.
A obra de Bispo do Rosário determina uma ruptura no mundo da razão. Ele ‘‘constrói’’ o verbo (e seu manto da ascensão é um bom exemplo) para destruir a lógica. Bordou esse manto para subir aos céus quando fosse enterrado, mas a ‘‘boa razão’’ não deixou, porque a boa razão dos curadores é primitiva, persegue a acumulação pré-histórica. Parece claro que a intenção do artista não era a desmitificação do fazer artístico, até mesmo porque sua perturbação mental não permitira tal clareza. Ele perseguiu a materialização de objetos num mundo invisível. O que o mundo do consumo rejeitava, virava objeto de culto em suas mãos. Daí esse retorno a uma realidade pré-moral, pré-civilizatória. Em suma, ao mundo do sagrado.

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