Um artista de pinturas distraídas
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sexta-feira, 27 de dezembro de 1996
Zeca Corrêa Leite Sucursal de Curitiba 
Sérgio Ferro mora há 25 anos na França. Passou muito tempo em Paris, hoje vive num vilarejo minúsculo, Grignan, de 1.304 almas, onde os girassóis tornam os dias amarelados e as lavandas perfumam o ar. Lá todas as estações são lindas, descreve o artista, pai de quatro filhos (dois nascidos no Brasil). São seus francesinhos e ele prisioneiro dessas crianças. Autor do painel do Memorial da Cidade, entregue oficialmente ao público no dia 19 de dezembro, Ferro concedeu entrevista à Folha2, na qual fala de sua obra, dos amigos, da arte moderna e anuncia que provavelmente voltará a expor em Curitiba daqui um ano e meio.
Como o senhor classifica este painel no conjunto de sua obra?
Sérgio Ferro- Não sei se este é meu sexto ou sétimo mural, mas foi um dos que mais me interessou, o que eu mais gostaria de fazer. O teto é o primeiro que faço, e é bastante diferente de um mural - tem sempre o mistério da altura. Por ser um mural para a minha terra natal também emociona muito. A volta para casa e o olhar para cima são dois marcos desse trabalho para mim.
O olhar para cima na terra natal é diferente que em outras terras?
Sérgio Ferro- Não, mas o olhar para cima já é diferente. Normalmente olhamos pinturas em paredes, numa continuidade com nosso espaço, nossa situação, nosso meio. Agora criou-se a obrigação de pintar para esse tipo de olhar, de expectativa, de posição. O teto é uma coisa muito forte. Primeiro vem da nossa linguagem: tudo que é bom, sublime, vem das alturas. Por isso neste mural não utilizei nada histórico, nada muito concreto. São figuras meio alegóricas dos diversos momentos formadores da economia do Paraná, mas nada muito exato, preciso. Deixei voluntariamente as figuras um pouco ambíguas, nuas, fazendo umas atividades que não são muito explícitas. Elas se referem ao passado mítico da terra, mas que deixa um campo bastante grande à imaginação, à interpretação.
Garimpa-se a vida?
Sérgio Ferroá- Sim, e também lenha-se, carrega-se a vida. É um pouco nesse sentido.
Deixando Curitiba quais são seus projetos?
Sérgio Ferroá- Tenho engatada uma exposição agora em São Francisco (Estados Unidos). Para o ano que vem uma em Paris e está prevista uma retrospectiva no Masp, também em 97, bastante grande. Estou chegando aos 60 anos. Sessenta de idade e 58 de pintura, creio.
Sua obra segue um tom clássico. O sr. não aprecia arte moderna?
Sérgio Ferro- Tenho uma posição um pouco fora de norma em relação à pintura contemporânea. Entrei por um atalho muito meu e não estou dentro das correntes dominantes. Veja bem, não estou reclamando, é de propósito, intencional. Porque a procura da minha pintura, sobretudo no período de maturidade, é tocar as pessoas, falar com elas. Ao contrário da contemporânea eu me preocupo muito menos em me exprimir - mostrar meu estômago, minhas angústias, minhas entranhas - e muito mais em chegar perto das pessoas dizendo coisas simples, mas que estabeleçam uma comunicação. Isto não quer dizer de maneira nenhuma que seja simplificar a pintura. Faço um trabalho bastante grande em torno da linguagem, que não aparece aqui, mas mexo muito com a semiótica.
Qual é o seu público?
Sérgio Ferro- O meu público predileto é o das pessoas mais simples, aquelas afastadas da arte. Elas têm grande espontaneidade e ingenuidade, às vezes até um certo medo de se aproximar da obra de arte, principalmente em função do que hoje é mostrado como sendo obra de arte. Adoraria fazer uma pintura que fosse como é o filme de Chaplin com a música de Chico Buarque.
O que o sr. quer dizer quando fala do medo das pessoas com obras de arte?
Sérgio Ferro- Essa pintura muito radical, chata, essa arte de empilhar latinha, botar cisquinho no canto... ninguém mais tem muita paciência para isso. Há uma fome de arte, de pintura. Basta ver as filas na Europa, e mesmo aqui, filas quilométricas de gente que quer encontrar na arte uma outra coisa que não seja rebuscamento, esoterismo e, ultimamente, muita empulhação.
Existe arte nas latinhas empilhadas ou ovos em saquinhos de supermercados, como já foi visto aqui?
Sérgio Ferro- Duchamps quando começou com esse tipo de prática tinha uma intenção bastante clara, na medida em que sentiu que o artista era cada vez mais esse personagem egocêntrico, solitário, engolido no próprio umbigo. Ele radicalizou isso dizendo bom, já que é assim, a arte é aquilo que o artista assina. Se ele pegar uma vara de bicicleta e espetar num banquinho de cozinha, é arte porque foi ele que fez. Tirar uma louça sanitária do banheiro e pendurar numa parede de museu - e ele fez isso - é arte porque ele quis. Duchamps fez isso no começo do século 20; a gente continuar fazendo vai ficando chato, depois chatíssimo, depois chatésimo e agora ninguém quer saber disso.
Ninguém mesmo?
Sérgio Ferro- O mais ridículo é que esse tipo de arte se pretende ser de vanguarda, arte revolucionária que provoca o burguês. Mas hoje em dia tudo isso só funciona com financiamento público. Então é o público financiando a revolta contra o público. Fica uma coisa muito esquisita - é a subvenção da subversão.
A seu ver, quem gosta realmente dessa arte?
Sérgio Ferro- Não sei, mas ela é muito útil para alguns artistas e para os críticos. Cada vez mais as grandes exposições não são de pintores, mas de críticos. É a exposição do sujeito que organizou aquele conjunto. Por exemplo, a bienal é do curador; a Documenta idem, do curador daquele ano.
O sr. tem curador?
Sérgio Ferro- Não. A única pessoa que me cura é a minha esposa. Ela cura minha alma das dores do mundo.
O senhor enfrenta preconceito da crítica?
Sérgio Ferro- Uma parte da crítica me rejeita. Aquela que gosta da vanguarda, que jura que pintura é corrida de cavalo, que tem que ser sempre um que chegue em primeiro lugar e outro em segundo. Isso acontece mais aqui que lá fora. É uma coisa bem provinciana pensar que a arte tem um caminho, um trilho e a gente é obrigado a seguir aqueles dois ou três trilhos. A arte é liberdade, é canto, é expressão de vida. Tentar impor limites, pistas únicas, guaritas, colocar roletas para contar quantos entraram numa exposição é ridículo.
O sr. tem contato com o que se faz no Brasil?
Sérgio Ferro- Pouco, muito pouco. Tenho de alguns amigos que são da minha geração, e com os quais mantenho contato, como o Claudinho Tozzi, o Gerchmann, sobretudo o Wesley Duke Lee que admiro profundamente. São os que mais acompanho.
O sr. tem exposto aqui o suficiente?
Sérgio Ferro- Praticamente todo ano faço uma exposição ora no Rio, ora em São Paulo. Ainda este ano estive Curitiba. Tenho exposto bastante e mais não dá porque sou um pintor muito lento, pinto devagar. A princípio daqui a um ano e meio devo fazer uma nova exposição em Curitiba.
O sr. tem alguma temática que esteja perseguindo?
Sérgio Ferro- Geralmente trabalho com dois tipos de quadros: uns são como quando você telefona e fica rabiscando num papelzinho. Faço muitos assim, distraídos. Mas por puro prazer, pura fruição da alegria de pintar. Aliás, a alegria é uma coisa que falta muito aos empilhadores de caixinha. E depois outros quadros que são agrupados por temas. Agora, por exemplo, será aberta uma sala na França com trabalhos meus que são da série dos lava-pés de Cristo.


