André Bernardo
TV Press
Walter Avancini, que dirigi o ‘‘Você Decide’’ desta semana, contabiliza os erros e acertos aos 57 anos de carreira
Walter Avancini não consegue ficar muito tempo sem pensar em trabalho. Desde que foi convidado pelo diretor geral de criação da Globo, Daniel Filho, para trabalhar na emissora, ele ainda não mostrou serviço. A princípio, foi convidado para dirigir ‘‘Vargas’’, de Dias Gomes. A minissérie, porém, acabou engavetada. Em seguida, foi escalado para ‘‘Dom Quixote’’, especial escrito por Geraldo Carneiro. Mais uma vez, o projeto não saiu do papel. Irrequieto, o diretor pediu à Globo para ajudar no que fosse possível. ‘‘Estou há muito tempo parado. Quero movimentar minha energia’’, justifica.
Por conta disso, Avancini foi incumbido de dirigir ‘‘A Filha de Maria’’, episódio de Natal do ‘‘Você Decide’’. Nele, o público vai ter de decidir se a personagem de Elizabeth Savalla emprega ou não a verba levantada para a montagem de um auto de Natal no pagamento da fiança da filha, vivida por Débora Secco. Sem trabalhar na Globo há nove anos, Avancini tomou um susto quando entrou pela primeira vez no Projac e se deparou com o complexo de estúdios que ele conhecera apenas na planta. ‘‘Parece até que dormi esse tempo todo’’, espanta-se.
Aos 64 anos de idade, Walter Avancini já contabiliza 57 de profissão - aos sete anos, já trabalhava como ator numa rádio paulistana. Para ele, ficar um ano sem dirigir o que quer que seja é algo fora de cogitação. Pois foi justamente o que aconteceu desde que ‘‘Brida’’, exibida pela extinta Manchete, saiu do ar em novembro de 1998. Neste período, teve de se contentar em assistir aos seus programas favoritos: ‘‘Cartão Verde’’, da Cultura, e ao ‘‘Casseta & Planeta, Urgente!’’, da Globo. ‘‘Sou feito um computador que interpreta tudo o que vê em função do veículo em que trabalha’’, compara.
Seu último trabalho na Globo foi ‘‘A Garota da Capa’’, de 1990. Como recebeu o convite para dirigir ‘‘Você Decide’’?
Recebi o convite com muita satisfação. Afinal, trabalhei na Globo por 16 anos. Participei dos anos de ouro da emissora, quando ela caminhava para o chamado padrão global de qualidade. Estou tendo a oportunidade de reencontrar três gerações com as quais trabalhei. Fiz muitos amigos tanto na área artística quanto na operacional. Aqui, tenho condições de trabalho que nunca tive no SBT ou na Manchete.
O que mais chamou a sua atenção depois de nove anos?
Durante anos, a Globo se manteve absoluta na liderança. Com os aparelhos de tevê mais baratos, as classes C e D entraram no mercado e criaram espaço para programas mais populares, como o do Ratinho. Agora, a Globo tem o desafio de entender esses novos signos sem perder sua identidade. A situação é nova e estimulante. É a chance dos profissionais da Globo se renovarem. Ganhar sempre pode levar à mesmice.
Qual é a sua expectativa de audiência na Globo?
Nunca estou satisfeito com o que faço. Mas, se conseguir realizar 15% do que idealizei, já é uma boa média. Em ‘‘Grandes Sertões: Veredas’’, ‘‘Morte e Vida Severina’’ e ‘‘Rabo de Saia’’, por exemplo, atingi uma média razoável. Por outro lado, em ‘‘Brasileiros e Brasileiras’’, do SBT, e em ‘‘Brida’’, da Manchete, fiquei muito frustrado.
A que você atribui o fracasso de ‘‘Brida’’, na Manchete?
A Manchete tinha a novela e nada mais. É difícil conquistar uma boa audiência em função de um único produto ou de jogadas ocasionais de marketing. Em ‘‘Xica da Silva’’, tive de chamar a atenção da mídia e garantir o patrocinador com a participação da Cicciolina, por exemplo. Já ‘‘Brida’’ não tinha sequer um mês no ar. Se não fosse a fragilidade econômica da empresa, teria recuperado a audiência.
Que fim levou ‘‘Vargas’’?
Os tempos mudaram em termos de investimento. Não se pode trabalhar o tempo todo em 35 mm porque sai caro. Trabalhamos num mercado achatado por uma crise. Isso tudo leva uma empresa a avaliar cuidadosamente os custos da produção. É uma questão de bom senso. A minissérie cobria uma época de difícil reconstituição. Fazer mal feito não interessa a ninguém. Nem seria uma homenagem ao meu querido Dias Gomes fazer um trabalho deste porte com parcos recursos.

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