A trajetória pessoal do curitibano Mauro Alice se confunde com a história do cinema nacional. Aos 73 anos, é conhecido e respeitado em todo o País e no exterior. Considerado o montador de filmes, em atividade, mais antigo do Brasil, ele trabalhou nos anos 50, 60 e 70 nos estúdios Vera Cruz, que marcaram uma época significativa no cinema brasileiro.
Sua paixão pelas películas teve início na década de 40, quando ainda morava em Curitiba e era estudante de Química. ‘‘O meu tio era dono dos cines Palácio, Luz e República e eu assistia a todos os filmes de graça’’, explica.





Mauro Alice fez história com o cinema brasileiro, ele foi responsável pela montagem de filmes (de cima para baixo) como ‘‘Coração Iluminado’’ e ‘‘Brincando nos Campos do Senhor’’, de Hector Babenco. Ganhou prêmio de Melhor Montagem por ‘‘Jeca Tatu’’, com Mazzaropi (1959) e fez a montagem de ‘‘Até Que a Vida Nos Separe’’, de José Zaragoza, que será lançado neste semestreQuando acabou o curso e conseguiu um estágio na empresa Rhodia, em Santo André (SP), Alice teve conhecimento de que a Vera Cruz estava sendo construída, no município vizinho de São Bernardo. ‘‘Arranjei um emprego lá, como ajudante de projecionista, e nunca mais parei de trabalhar com cinema.’’
Em seu currículo estão produções de Hector Babenco, Walter Hugo Khouri e outros grandes cineastas, além do filme ainda inédito do publicitário José Zaragoza, ‘‘Até que a Vida nos Separe’’, que estará nos cinemas brasileiros ainda neste semestre.
A seguir leia trechos da entrevista que Mauro Alice concedeu à Folha2.
Como foi a época da Vera Cruz?
A Vera Cruz foi criada em 1950, por Franco Zapari, que trouxe um grande nome brasileiro no cinema internacional, Alberto Cavalcanti, para organizar os estúdios. O intuito era criar um cinema profissional, formar ali dentro novos profissionais. Em parte, ele conseguiu. Até então, os setores de montagem e sonorização, por exemplo, eram amadores. Podemos classificar o cinema brasileiro como antes e depois da Vera Cruz. Foi um divisor de águas.
Você esteve ligado à Vera Cruz, desde o início até a extinção da empresa. Quais foram as fases que vivenciou lá dentro?
A primeira cisão da Vera Cruz, quando abriu falência, foi em 1956. Nessa época, foi criado um sistema de defesa da produção do estúdio, por isso foi criada uma nova empresa, a produtora Brasil Filmes. Então, foi possível continuar produzindo dentro dos estúdios da Vera Cruz, através da nova empresa. Logo em seguida, houve um surto enorme dos filmes comerciais e publicitários, foi quando a TV chegou com tudo. Então os estúdios de som e filmagem começaram a ser locados. A TV Tupi, por exemplo, alugava alguns estúdios só para produzir suas novelas. Houve ainda um outro período em que nem a Brasil Filmes conseguiu mais se sustentar, então os acionistas principais tomaram os estúdios para produzir seus próprios filmes. Foi aí, já na década de 70, que os irmãos Khouri (Walter Hugo e Willian) assumiram a Vera Cruz.
Em sua opinião, quais foram os filmes mais importantes produzidos na Vera Cruz?
O primeiro nome que nos vem à cabeça, que foi o primeiro grande êxito da Vera Cruz foi ‘‘Sinhá Moça’’, (de Tom Payne e Oswaldo Sampaio, 1953), considerado um grande filme até hoje. Eu trabalhei como assistente na edição dos diálogos. Na época, diziam que Sampaio estava fazendo ‘‘E o Vento Levou’’ brasileiro.
Qual outro grande filme?
‘‘O Cangaceiro’’, de Lima Barreto (1953), que marcou a volta do cangaço.
Quando você saiu da assistência e montou sozinho o seu primeiro filme?
Eu trabalhei em muitos filmes do Mazzaropi, até que eu tive a oportunidade de montar o meu primeiro filme, também com Mazzaropi, o ‘‘Candinho’’ (de Abílio Pereira de Almeida, 1954).
Quais foram os seus melhores trabalhos?
Não posso deixar de mencionar dois filmes: ‘‘Uma Pulga na Balança’’ (1953) e ‘‘Floradas na Serra’’ (1954), ambos de Luciano Salce. Esse último, foi infelizmente o único filme em que Cacilda Becker trabalhou. O romance foi recentemente exibido na Cinemateca de São Paulo e despertou grande curiosidade em jovens ligados ao cinema, que foram para ver o mito Cacilda Becker, mas encontraram um filme extremamente atual. O tema amor, vida e morte, explorado em ‘‘Floradas na Serra’’, tem uma forte ligação com o problema da Aids.
Qual foi seu primeiro contato com o cinema internacional?
No final dos anos 60, a Vera Cruz fez uma co-produção brasileira-francesa, gravada metade em Paris, metade no Guarujá (SP), chamada ‘‘Verão de Fogo’’, com Genevieve Grad no elenco francês e Tarcísio Meira no elenco brasileiro, entre muitos outros nomes. Outra co-produção foi ‘‘Palácio dos Anjos’’ (de Walter Hugo Khouri, 1970).
Quais foram os prêmios que você recebeu em sua carreira?
Os prêmios vieram, mas nunca pelos melhores trabalhos ou pelos melhores filmes. Por exemplo, eu ganhei um prêmio de Melhor Montagem por um filme que, segundo a crítica, era insignificante, o ‘‘Jeca Tatu’’ (de Mílton Amaral, com Mazzaropi, 1959), quando no mesmo ano eu havia feito um outro filme, ‘‘A Primeira Missa’’ (de Lima Barreto), um filme intelectual e muito mais interessante, que não ganhou nada.
Como foi trabalhar tantas vezes com Hector Babenco?
Fizemos recentemente ‘‘Coração Iluminado’’ (1998). Esse é um filme muito particular, com características de confessionário. Os personagens trazem tudo aquilo que Babenco vivenciou. É um filme muito lindo, feito com grande paixão. Eu também já tinha trabalhado na versão internacional de ‘‘Pixote’’ (1980), depois fiz com ele ‘‘O Beijo da Mulher Aranha’’ (1984) e um filme que foi uma superprodução (Brasil/Estados Unidos) que é o ‘‘Brincando nos Campos do Senhor’’ (1991).
Quais as diferenças na montagem de filmes no Brasil e nos Estados Unidos?
Os recursos são outros, os equipamentos são melhores e a dedicação deles é extraordinária. A produção brasileira é muito pequena, o que faz com que não valha a pena, financeiramente, investir em equipamentos mais avançados.
Qual foi o mais recente filme em que você trabalhou?
Ele ainda é inédito, chama-se ‘‘Até que a Vida nos Separe’’ (1998), do publicitário José Zaragoza. Foi o primeiro filme dele. É uma comédia dramática, que conta a história de seis amigos, interpretados por Júlia Lemmertz, Alexandre Borges, Beth Guzzmann, Norton Mascimento, Marcos Ricca e Murílio Benício. O filme mostra São Paulo como ela é: uma cidade de cabeça para baixo.
Qual será o próximo?
O novo filme de Zaragoza, ‘‘A Pedrada’’, que deverá ser feito ainda nesse ano. É um filme que aborda os grandes fazendeiros de São Paulo.
Como você vê a retomada do cinema nacional, com o ‘‘Central do Brasil’’ concorrendo ao Oscar este ano?
Eu é que pergunto: você acha que existe retomada do cinema nacional? Por exemplo, uma amiga minha brasileira, que acabou de gravar o seu filme e estava pronta para finalizá-lo nos Estados Unidos, agora não pode mais, por causa da virada do dólar. Eu acho que o cinema nacional passa por surtos, fases.
E você acha que a próxima fase do cinema nacional será mais difícil?
Eu creio que sim, pelo que conversei com pessoas da área. Acho que o que foi feito não é significativo para um espaço como o Brasil. Falta muito em termos de linguagem e produção e eu acho que não é um Oscar que vai segurar.Mauro FrassonMauro Alice: ‘‘Podemos classificar o cinema brasileiro como antes e depois da Vera Cruz. Foi um divisor de águas’’Aos 73 anos, o montador
de filmes Mauro Alice
continua em atividade
mas duvida da retomada
do cinema brasileiro

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