Um ano sem surpresas literárias
Marcos Losnak
De Londrina
Especial para a Folha 2
No mundo da literatura, o ano de 1999 não foi melhor nem pior que os anteriores. Um ano morno em que o mercado editorial pensou dez vezes antes de lançar um livro.
Pensar dez vezes antes de publicar uma obra não significou uma apurada avaliação de seu valor literário, mas a avaliação se ela venderia ou não, se poderia dar lucro ou não. Há muito tempo a literatura deixou para trás sua aura de arte para se transformar em mercadoria, uma mercadoria como outra qualquer.
Como em todo fim de ano nascem vastas plantações de previsões, em dezembro de 1998 afirmava-se que 1999 seria o ano da explosão da literatura escrita em língua portuguesa. O otimismo era decorrente do fato do escritor português José Saramago ter recebido o prêmio Nobel de Literatura de 1998. Pela primeira vez na história do consagrado Nobel um escritor de língua portuguesa foi agraciado com o prêmio.
Por ironia do destino, o próprio José Saramago não publicou nenhuma nova obra este ano. Em diversas entrevistas afirmou que depois de ter ganho o Nobel, não teve tempo de escrever uma única frase literária, apenas discursos e conferências.
O fato inegável é que, de maneira geral, as editoras enxugaram o volume de livros publicados este ano. O contexto econômico, mais uma vez, foi o vilão da história. Apostar apenas em livros que poderiam oferecer retorno econômico foi princípio básico. Arriscar o mínimo possível tornou-se regra. Mesmo assim, o volume de obras publicadas foi imenso, seria impossível para um o leitor conhecer todas para avaliá-las.
Apesar do quadro, o ano de 1999 ofereceu belas obras aos leitores. Em matéria de clássicos, por exemplo, a Editora Globo publicou, em quatro volumes, as obras completas do escritor argentino Jorge Luis Borges. Outro destaque está na edição bilíngue da A Divina Comédia de Dante Aliguieri lançada pela Editora 34 com nova tradução.
Em matéria de relançamentos, os méritos estão nas mãos das Editora Nova Fronteira que recolocou nas livrarias os dez volumes de Mar de História - Antologia Mundial do Conto organizados por Aurélio Buarque de Holanda Ferreira e Paulo Rónai. Esgotado há uma década, a coleção oferece um panorama da literatura universal, nas mais variadas épocas e culturas. Vale lembrar o início do relançamento das memórias de Pedro Nava pela Ateliê Editorial. Baú de Ossos, o primeiro dos sete livros, saiu em outubro último.
As novidades literárias não foram muitas em 1999, uma verdadeira calmaria. A maioria dos escritores consagrados permaneceram na manutenção de suas carreiras e os aspirantes esfolando os joelhos em frente a editoras. Destaque, entre os consagrados, para o gaúcho João Gilberto Noll que, apesar de publicar um livro encomendado sobre a preguiça pela Editora Objetiva, Canoas e Marolas, manteve-se fiel ao sua linguagem instigante. Destaque, entre os aspirantes (nem tão aspirantes assim), para o sergipano Antonio Carlos Vianna com o livro de contos O Meio do Mundo publicado pela Editora Companhia das Letras, e para o paranaense Manoel Carlos Karan com as narrativas de Comendo Bolacha Maria no Dia de São Nunca lançado pela Editora Ciência do Acidente.
Entre as centenas de romances publicados em 1999 alguns merecem atenção, como Montanha Gelada de Charles Frazier e A Travessia de Cormac McCarthy, ambos lançados pela Editora Companhia das Letras. Seguindo a velha tradição dos contadores de histórias, Frazier e McCarthy não apresentam o destino das personagens, mas a eterna e dolorosa busca de um suposto destino, o aprendizado da existência.
A melhor pessoa para apreciar um livro é o leitor, não o jornalista, o resenhista ou o crítico. Pode ocorrer, em alguns casos, que o próprio jornalista seja um leitor. Mas isso não significa, de maneira alguma, que ele represente o leitor ou mesmo a obra. Ou seja, toda leitura é uma atividade individual. No próximo ano as coisas não serão diferentes.





