ReproduçãoRenato Russo: tom messiânico permeou sua carreiraUma série de boatos sobre o suicídio de Renato Russo invadia o Rio de Janeiro quando o guitarrista Dado Villa-Lobos resolveu visitar o amigo. Russo já não se alimentava. Estava magro e muito doente. De manhã, o telefone de Villa-Lobos tocou. Renato Russo estava morto. Era o dia 11 de outubro de 1996, há um ano.
Corria a segunda metade dos anos 70 e Renato Manfredini Júnior ouvia insistentemente grupos como Yes, King Crimson e Genesis. Mas já no final da década o rock progressivo entrou em decadência e, após uma passagem pelos rock dos anos 60, o garoto mergulhou no punk rock dos Sex Pistols. Influenciado pelo movimento o rapaz montou uma banda, chamada Aborto Elétrico. Quando Sid Vicious, dos Sex Pistols, morreu, Renato Russo tomou o primeiro porre. E iniciou a trajetória que o tornaria líder de uma das bandas mais populares do Brasil - ao mesmo tempo em que afundava em drogas e álcool, situação que combateu com dificuldade até a morte, ocorrida em decorrência da Aids.
Desde a infância Renato Russo se interessava pela vida de popstar. Sonhava em ser um dos Beatles, uma figura expressiva do rock mundial, e criou até um personagem imaginário - ele mesmo - chamado Eric Russel, que se tornaria posteriormente Russo, nome fictício associado ao filósofo Jean-Jacques Rousseau e o inglês Bertrand Russel.
Com a adolescência e o punk rock, o sonho virou às avessas. O inconformismo adolescente - que gerou letras quase panfletárias sobre a realidade brasileira - associado à rebeldia e depressão, apagou os ideais de popstar em troca de uma mistura de conceitos envolvendo revolução, sexualidade, religião e romantismo.
Nesta altura, Renato Russo queria soltar o verbo sem se preocupar com detalhes técnicos da letra, como ritmo e sonoridade - ele mesmo confessaria, posteriormente, que não se achava um grande letrista -, e compartilhava a excitação hormonal da juventude com a revolta remanescente de uma vida complicada.
O início da adolescência de Russo não foi dos mais simples. Nascido no Rio de Janeiro, ele morou em Nova York, voltou ao Rio de Janeiro e chegou em Brasília aos 13 anos. Mas aos 15 foi acometido por uma doença óssea que o levou a uma rotina de cirurgias, tratamentos e internações. A recuperação ocorreu aos 17 anos.
Carreira soloJá no início dos anos 80, Renato Russo abandonou o Aborto Elétrico para se empenhar na carreira solo. Logo em seguida formou o grupo Legião Urbana. Em 1984 a banda lança ‘‘Legião Urbana’’, álbum que trouxe alguns hits do grupo. A influência punk permanece, embora diluída, em ‘‘Geração Coca-Cola’’ - da época do Aborto Elétrico - e ‘‘Serᒒ.
O primeiro disco já revela o tom messiânico que o compositor manteria por toda a carreira. Os temas variam entre críticas sociais e amor, tratados com angústia e incertezas, atingindo em cheio o universo adolescente. ‘‘Dois’’, lançado em 1986, mantém o ritmo e revela novos hits. O terceiro, ‘‘Que País É Este?’, traz composições novas e músicas feitas na década de 70.
A fase mais melancólica do compositor começou com ‘‘As Quatro Estações’’. Na época, Renato Russo havia assumido a bissexualidade e - muitos garantem -, já tinha consciência de ser portador do vírus da Aids. As composições mais agitadas foram aos poucos desaparecendo, dando lugar para baladas carregadas de romantismo triste, sensação de desconforto e desilusão, que marcaram os últimos discos da Legião Urbana.
Russo também lançou dois álbuns em carreira solo: ‘‘The Stone Wall Celebration Concert’’, em homenagem ao movimento gay americano, e ‘‘Equilíbrio Distante’’, de romantismo exacerbado - brega, segundo o próprio Renato Russo -, gravado em italiano.
Já em 96, o compositor entrou em depressão e procurou o isolamento com mais frequência que nos outros anos. Aos poucos, sua casa foi se tornando um mini-hospital, com turnos de enfermeiras. Ele perdeu 20 quilos e apresentava problemas pulmonares. Não resistiu, e morreu à 1h15 da madrugada, desfalcando o rock nacional.

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