Um anjo zen no Paiol
Francelino França
De Curitiba
A cena teatral brasileira perdeu em qualidade durante os últimos 25 anos, com a ausência da atriz Berta Zemel nos palcos. Uma reclusão voluntária, refletida e maturada. Depois desse vácuo no tempo-espaço, ela escolheu Anjo Duro, um monólogo criado e dirigido por Luiz Valcazaras, sobre a psiquiatra Nise da Silveira, para retomar seus projetos teatrais.
Em Curitiba, uma platéia visivelmente ansiosa recebeu a atriz com um interminável e merecido aplauso. O nível agudo de sutileza que Berta Zemel imprimiu a todo seu teatro revelou às novas gerações presentes uma atriz com total disponibilidade para assumir o papel de contadora de história. A versatilidade de sua atuação fez emergir uma atriz cujo processo de criação não se manteve num tubo de ensaio, submerso na criogenia.
A clareza com que a história foi apresentada, sem subterfúgios, foi o contraponto para Berta se apegar e apresentar os caminhos que levaram Nise da Silveira a se embrenhar nos obscuros caminhos da esquizofrenia. Anjo Duro pode ser visto sob a ótica de um teatro didático, em função da interpretação personalizada e insanamente zen de Berta Zemel. Logo nos primeiros minutos, percebe-se um processo de criação burilado, que desembocou num desempenho arrebatador.
Nesse diálogo com Spinoza, a voz serena e aconchegante de Berta imantou o público como se fossem velhos amigos. Somente alguém tão próximo com o fazer teatral permite esse trato íntimo. Foram nas pausas dessa serenidade que Berta Zemel dizia o mais importante das Cartas de Spinoza. Para o filósofo, Nise contava as transformações que a levaram a se tornar aquela mulher múltipla, sua relação com o mundo e a fenda no coração, em que se alojou sua compaixão para com os dementes. Os eletrochoques que tanto mal causaram aos seres de espíritos aprisionados, deixaram marcas na alma da psiquiatra. Nise da Silveira ancorou a esquizofrenia em cavaletes de pintura.
Um paciente confessou à doutora, ao entregar um presente: a ciência é importante, mas se desprender do coração não é nada. O elo entre ciência e coração, no caso de Nise da Silveira, se deu através da arte, com a criação do Museu de Imagens do Inconsciente.
A esquizofrenia dessa montagem com o encontro entre o racionalismo da carpintaria dramatúrgica precisa de Luiz Valcazaras com a emoção fluida com que o público foi tocado. Foi um relâmpago que deslumbrou o Teatro Paiol. O ponto de encontro entre Nise da Silveira e Anjo Duro é que nos dois casos se buscou o caminho da simplicidade, tão longo e sinuoso que nem uma ausência de 25 anos conseguiu apagar.





