ReproduçãoAs asas de Travolta, em ‘‘Michael, Anjo e Sedutor’’Ex-mulher do jornalista Carl ‘‘Watergate’’ Bernstein, cujas aventuras extra-conjugais foram por ela reveladas publicamente em livro autobiográfico adaptado para o cinema em 86 com o título de ‘‘A Difícil Arte de Amar’’( Meryl Streep e Jack Nicholson dirigidos por Mike Nichols), a escritora Nora Ephron tem a seu crédito pelo menos um notável roteiro de denúncia ecológica, ‘‘Silkwood - Retrato de uma Coragem’’ (novamente Meryl Streep, e novamente dirigida por Mike Nichols). E uma afável e espirituosa crônica romântica: o argumento para ‘‘Harry e Sally - Feitos Um para o Outro’’, sucesso mundial de Billy Crystal e Meg Ryan dirigidos por Rob Reiner. Quando decidiu passar à direção, Nora demorou apenas um filme para se dar bem. Citando um clássico da comédia romântica sofisticada, ‘‘Tarde Demais para Esquecer’’, ela cativou milhões de espectadores com ‘‘Sintonia de Amor’’, seu segundo longa realizado há quatro anos. Agora, depois de um sério tropeço com ‘‘Um Dia de Louco’’, de 94, a roteirista-diretora volta a seu território preferido e tenta novo sucesso com ‘‘Michael, Anjo e Sedutor’’(veja a programação de cinema na página 3).
Na trilha dos anjos O tema não podia ser mais atual. Afinal, anjos de qualquer espécie se tornaram up to date e viraram uma espécie de amuleto da sorte, além de enriquecer todo um contingente de espertalhões, sacros ou profanos, sempre hábeis em transformar crendices em gorda fonte mercantil. Por outro lado, o tema para o cinema não podia ser mais antigo. Anjos já eram conhecidos desde o período mudo, mas é a partir do sonoro que eles se tornam mais frequentes em Hollywood, primeiro com asas e assustadores, depois mais extravagantes, embora menos aterradores e ostentando certa ambiguidade. Os mais simpáticos e bem-sucedidos sempre estiveram ligados à comédia ligeira ou à fantasia humanista - Claude Rains na primeira versão de ‘‘O Céu Pode Esperar’’, por exemplo. Há criaturas angelicais com um verniz mais cabeça - caso dos anjos que sobrevoam Berlim em ‘‘Asas do Desejo’’, do alemão Wim Wenders.
No filme de Nora Ephron, o arcanjo Michael é John Travolta. Não é se trata de uma entidade voadora qualquer, mas uma estranha figura que pode ser ou pode não ser. Para tentar descobrir quem de fato é o tal Michael, fumante e bebedor de cerveja, e se ele realmente se comunica com alguém hierarquicamente mais acima, um rigoroso jornalista de tablóide (William Hurt) e uma cínica expert em anjos (Andie MacDowell) viajam até Iowa em busca de pistas. Alguém com presença de espírito na ponta da língua matou a charada e concluiu que o amigável anjo Michael é o personagem de ‘‘Fenômeno’’, reencarnado no mesmo John Travolta.
O roteiro aqui ganhou a colaboração de outra Ephron, Delia, irmã de Nora e também produtora . E a escolha para o anjo-playboy recaiu sobre Travolta depois que as duas se encantaram com o ar de enfadonho deslocamento criado pelo ator em ‘‘Pulp Fiction’’, de Quentin Tarantino. Na verdade, a história teve no papel um primeiro tratamento excessivamente pesado. As irmãs Ephron, no entanto, foram buscar nas raízes de ‘‘Sintonia de Amor’’ o tom pretendido. Vale a curiosidade: ‘‘Michael’’ é o primeiro filme que a Turner Pictures banca diretamente para a tela grande do cinema. A companhia busca valorizar o entretenimento ‘‘familiar e saudável’’. Palavras de Ted Turner, entre uma e outra investida contra a exibição nos Estados Unidos de ‘‘Crash’’, de David Cronemberg.

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