Há uma poesia que sangra. Que arranca qualquer consciência de seu comodismo e a lança para um desconforto essencial. É uma poesia dura, seca, arrebatadora. Assustadoramente formal. Sob o vigor de uma lógica lírica, translúcida, pura em sua obsessão pela queda. Essa vertente poética, rara e imprecisa, encontra nos versos de Bruno Tolentino um expoente máximo, diluindo limites entre obra e criador. Tolentino não é poeta. Poesia é que por sua vez também resulta em Bruno Tolentino...
O impacto dessa vigília desmitificadora pode ser detalhada em diversos sítios nacionais. 1.260 referências ao nobre criador de mundos oferecem os melhores de seus versos. Caso de páginas como o Jornal de Poesia (www.secrel.com.br/jpoesia/btolentino.html) e o Mar de Poesias (www.mardepoesias.com.br).
Mas quem é esse anjo caído que nos encanta em seu isolamento? Uma notícia biográfica diz: ‘‘Bruno Lúcio de Carvalho Tolentino, menino carioca de família aristocrática, gosta de dizer que é de um tempo em que rico não roubava. O avô foi conselheiro do Império e fundador da Caixa Econômica Federal e seus primos são reconhecidos intelectuais, como Barbara Heliodora, a crítica teatral, e Antonio Candido, o crítico literário. Saiu do Brasil em 64, ocupando-se no estrangeiro de árvores genealógicas de origem erudita. Orgulha-se de ter filhos com mulheres descendentes do filósofo Bertrand Russell e do poeta Rainer Maria Rilke. Publicou livros de poesia em inglês e francês. Em 94, lançou no Brasil ‘As Horas de Katharina’, e no fim de 95 mais dois, ‘Os Deuses de Hoje’ e ‘Os Sapos de Ontem’ – todos ignorados pela crítica, pelo público e pelos curiosos.’’
Mais saboroso de que todas as suas contradições biográficas, é o impasse expresso nos versos do autor. É um homem que busca a redenção, mas não evita o excesso de lascívia. Pretende a beatitude, e só vilumbra o caos. Compõe a perfeição, partindo das mais canhestras inspirações – a vida e seu mistério. É um homem que em um só poema devassou o belo que a religião nos impõe. O poema como exemplo se chama ‘‘O Anjo Anunciador’’, um comunicado à Maria que irá receber seu filho: ‘‘Ó pétala intocada/hás de sofrer/intensa madrugada/e num lago de luz como afogada/hás de durar suspensa/entre a graça imortal e a dor imensa. Mas canta, canta agora/como a fonte borbulha, como a agulha atravessa o bordado, canta como essa luz pousa ao teu lado/e te penetra e tece a nova aurora,/a nova Primavera e a tessitura/do ramo que obedece e se oferece/para o mistério e pela criatura. Canta a alucinação,/o toque enfim possível dessa mão/que há de colher para perder e ter/o infinito que nasce do deserto/e a semente que morre se socorre/tudo o que no estertor tentava ser. Canta a canção do lírio e do alecrim,/essa canção que és e que na treva,/na escuridão da carne, andava perto/da imensidade que te invade. E assim/como o imenso te ampara,/ó voz tão clara/que consolas e elevas,/vem, desperta,/matriz da eternidade e d’o sem-fim,/ó mãe de Deus, canta e roga por mim’’.
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