Um andarilho em busca da felicidade
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terça-feira, 13 de junho de 2006
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
A altivez dos loucos não se importa com a fome e a dor ao se refugiar na atmosfera delirante que o personagem do monólogo ''De París, Un Caballero'', vai tatear na estréia de hoje no FILO, com reapresentação amanhã, às 21 horas, na Casa de Cultura (Rua Mato Grosso, 537). Um espetáculo que contorna a felicidade, que pode encontrar razão de ser na loucura, trazendo ao palco do festival, a segunda peça apresentada nesta edição pela companhia cubana Teatro de Buendía, que estreou na mostra com ''La Octava Puerta''.
O grupo já se apresentou no festival londrinense há 16 anos, retornando com ''De París...'' pelas mesmas ruas de Havana, onde um personagem lendário de Cuba andava procurando a felicidade - uma promessa para todos os homens, mas que alguns só conseguem encontrar saltando para a loucura.
Com o poder das máscaras, o ator José Antônio Alonso no monólogo entra na essência de um andarilho, que como muitos carrega na alma aturdida pelos delírios, um pouco de fidalguia ainda que vestidos em trapos.
No caso, um imigrante espanhol, que morreu na década de 80, em um Hospital Psiquiátrico, e que perseguia a felicidade, um sentimento que na avaliação do ator não está num determinado espaço, mas dentro de nós. É nessa busca que as pessoas podem se perder.
''Felicidade para mim está em três coisas: ter uma casa própria, um trabalho que a gente gosta e que lhe dê o mínimo para sobreviver e um amor. Com isso você é feliz em qualquer parte'', afirma José Antônio Alonso, ator que no palco é a interface da loucura cotidiana.
De lucidez, o personagem tem apenas a cidade que envelhece a sua volta, enquanto a velhice lhe fala aos ouvidos secretamente.
Somente os loucos têm razões para os seus delírios, podendo explicar também os sonhos da imigração, que tiram o sono de muitos cubanos, que há mais de 40 anos vivem sob uma ditadura.
''Muitas pessoas querem sair e estão justificadas. Vivemos em nosso país uma lei igual para todos. As pessoas são diferentes e você tem que tratar o ser humano dessa maneira. Você precisa encontrar uma solução inteligente e não partir por partir. Outros, porque é proibido partir, alimentam o sonho da partida'', destaca o ator, que não fala por entrelinhas ao estar em concordância com o governo Fidel Castro.
Com vários prêmios, o Teatro Buendía produz espetáculos de pesquisa sobre as tradições culturais da América Latina e os meios expressivos do ator e a renovação das linguagens cênicas.
No Buendía, a palavra é uma experiência visual e representa no FILO a arte de um país que Solano acredita um dia se tornar um Chile, com mentalidade socialista e economia capitalista, onde o grupo, por enquanto, garante a longevidade, desviando-se da censura ao contestar e fazer crítica de uma maneira artística e não grosseira.
SERVIÇO:
- De París, um Caballero - Roteiro e direção: José Antônio Alonso e Irene Borges. Atuação: José Antônio Alonso. Assessoria dramatúrgica: Raquel Carrió e Flora Lauten. Edição musical: Daniel PiÀa e Adrián Torres. Máscara e maquiagem: Pavel Marrero. Produção: Nuria Nuáez, Julio Mainegra e Alejandro Ronda. Direção geral do grupo Teatro Buendía: Flora Lauten. Duração: 50 minutos.


