Um amor de rebeldia
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 12 de julho de 2016
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Corrupção, superfaturamento, propina, caixa dois, lavagem de dinheiro, licitação fraudulenta e outras falcatruas políticas sempre foram temas presentes na literatura brasileira. Seja como pano de fundo histórico ou como discurso de indignação.
Com o advento da recente Operação Lava Jato, com suas revelações e consequências, a temática promete infestar a nova produção literária brasileira. "A Bíblia do Che", novo romance do escritor paranaense Miguel Sanches Neto, segue nessa direção ao apresentar como elemento da narrativa a máquina de desviar dinheiro gerenciada pelos políticos do país.
Lançado pela editora Companhia das Letras, "A Bíblia do Che" traz a história de Carlos Eduardo, um professor de literatura que abandonou o magistério para levar uma vida de isolamento social. Reside solitariamente numa pequena sala do centro de Curitiba. Estabelecendo contato mínimo com o ser humano, passa os dias imerso em livros de literatura.
Um belo dia bate em sua porta Jacinto, um velho amigo com um trabalho insólito: encontrar a misteriosa Bíblia que pertenceu ao guerrilheiro Che Guevara (1928 1967) durante sua passagem por Curitiba antes de partir para a morte na Bolívia. Segundo a lenda, Che esteve na cidade em 1965 reunindo-se com grupos que lutavam conta a ditadura militar instalada no Brasil em 1964. Em sua estadia em Curitiba, sob uma identidade falsa, sempre carregava uma bíblia debaixo do braço, lendo, relendo e fazendo anotações sobre os Evangelhos. Jacinto não oferece nenhuma pista da Bíblia que deseja. Carlos Eduardo assume o papel de investigador particular para tentar encontrar o livro que pode valer milhões. Sua missão é encontrar o livro, se ele realmente existiu.
Jacinto é um estrategista da corrupção que fez fortuna através de fraudes e falcatruas em parceria com políticos de vários partidos em todas as esferas - federal, estadual e municipal. Alvo de uma investigação da Polícia Federal, procura manter a imagem de empresário de sucesso. Mas, uma bela noite, seu corpo aparece no porta malas de um carro incendiado.
Vale assinalar que Carlos Eduardo é personagem de outro romance de Miguel Sanches Neto, "A Primeira Mulher", publicado pela editora Record em 2008. Na história de "Primeira Mulher", ele é um professor universitário que vive correndo atrás das alunas belas e jovens. Seduzindo umas e levando outras para a cama. Na história de "A Bíblia de Che", o sujeito, após uma década de isolamento exemplar, sofre uma recaída quando recebe a visita de Celina, a jovem e bela viúva de Jacinto.
Após o assassinato de Jacinto, a moça bate à porta de Carlos Eduardo solicitando, além da bíblia que pertenceu a Che Guevara, proteção. Está sendo perseguida pelos políticos e empresários que faziam negócios escusos com o marido. Também teme ser assassinada como queima de arquivo.
O que acontece é obvio: o cinquentão se apaixona pela mocinha. E passa a fazer de tudo para proteger Celina e encontrar a misteriosa bíblia do revolucionário. Após todo tipo de situação perigosa e comprometedora em nome da paixão, Carlos Eduardo constata que foi enganado. Foi instrumento inocente de uma estrutura muito maior, um grande golpe para mascarar corrupção, desvios e falcatruas. Um inocente útil lesado pela paixão de uma jovem e linda mulher. Miguel Sanches Neto utiliza toda essa ambientação política e policial para falar da ilusão e do fracasso do amor. De como os homens, hipnotizados pela paixão, mesmo fazendo uso da razão, caem de quatro diante da atmosfera do enamoramento. O personagem é ludibriado pelo seu ponto masculino mais fraco: o amor. E apesar de passar pela mesma situação inúmeras vezes, sempre repete o mesmo erro, ou melhor, sempre se entrega ao desejo dos desejos.
Nascido em Bela Vista do Paraíso, em 1965, e autor de mais de trinta livros, Miguel Sanches Neto coloca em prática em "A Bíblia do Che" uma técnica narrativa que abarca uma série de elementos pré-determinados para o entretenimento do leitor. Tudo ponderado dentro do senso comum. Embora aborde as desrazões da paixão, a narrativa se revela ponderada e prudente. Avanços em alguns pontos estratégicos, recuos em outros previamente calculados.
Serviço:
A Bíblia do Che
Autor Miguel Sanches Neto
Editora Companhia das Letras
Páginas 288
Quanto R$ 49,90 e R$ 34,90 (e-book)


