Corrupção, superfaturamento, propina, caixa dois, lavagem de dinheiro, licitação fraudulenta e outras falcatruas políticas sempre foram temas presentes na literatura brasileira. Seja como pano de fundo histórico ou como discurso de indignação.
Com o advento da recente Operação Lava Jato, com suas revelações e consequências, a temática promete infestar a nova produção literária brasileira. "A Bíblia do Che", novo romance do escritor paranaense Miguel Sanches Neto, segue nessa direção ao apresentar como elemento da narrativa a máquina de desviar dinheiro gerenciada pelos políticos do país.
Lançado pela editora Companhia das Letras, "A Bíblia do Che" traz a história de Carlos Eduardo, um professor de literatura que abandonou o magistério para levar uma vida de isolamento social. Reside solitariamente numa pequena sala do centro de Curitiba. Estabelecendo contato mínimo com o ser humano, passa os dias imerso em livros de literatura.
Um belo dia bate em sua porta Jacinto, um velho amigo com um trabalho insólito: encontrar a misteriosa Bíblia que pertenceu ao guerrilheiro Che Guevara (1928 – 1967) durante sua passagem por Curitiba antes de partir para a morte na Bolívia. Segundo a lenda, Che esteve na cidade em 1965 reunindo-se com grupos que lutavam conta a ditadura militar instalada no Brasil em 1964. Em sua estadia em Curitiba, sob uma identidade falsa, sempre carregava uma bíblia debaixo do braço, lendo, relendo e fazendo anotações sobre os Evangelhos. Jacinto não oferece nenhuma pista da Bíblia que deseja. Carlos Eduardo assume o papel de investigador particular para tentar encontrar o livro que pode valer milhões. Sua missão é encontrar o livro, se ele realmente existiu.
Jacinto é um estrategista da corrupção que fez fortuna através de fraudes e falcatruas em parceria com políticos de vários partidos em todas as esferas - federal, estadual e municipal. Alvo de uma investigação da Polícia Federal, procura manter a imagem de empresário de sucesso. Mas, uma bela noite, seu corpo aparece no porta malas de um carro incendiado.
Vale assinalar que Carlos Eduardo é personagem de outro romance de Miguel Sanches Neto, "A Primeira Mulher", publicado pela editora Record em 2008. Na história de "Primeira Mulher", ele é um professor universitário que vive correndo atrás das alunas belas e jovens. Seduzindo umas e levando outras para a cama. Na história de "A Bíblia de Che", o sujeito, após uma década de isolamento exemplar, sofre uma recaída quando recebe a visita de Celina, a jovem e bela viúva de Jacinto.
Após o assassinato de Jacinto, a moça bate à porta de Carlos Eduardo solicitando, além da bíblia que pertenceu a Che Guevara, proteção. Está sendo perseguida pelos políticos e empresários que faziam negócios escusos com o marido. Também teme ser assassinada como queima de arquivo.
O que acontece é obvio: o cinquentão se apaixona pela mocinha. E passa a fazer de tudo para proteger Celina e encontrar a misteriosa bíblia do revolucionário. Após todo tipo de situação perigosa e comprometedora em nome da paixão, Carlos Eduardo constata que foi enganado. Foi instrumento inocente de uma estrutura muito maior, um grande golpe para mascarar corrupção, desvios e falcatruas. Um inocente útil lesado pela paixão de uma jovem e linda mulher. Miguel Sanches Neto utiliza toda essa ambientação política e policial para falar da ilusão e do fracasso do amor. De como os homens, hipnotizados pela paixão, mesmo fazendo uso da razão, caem de quatro diante da atmosfera do enamoramento. O personagem é ludibriado pelo seu ponto masculino mais fraco: o amor. E apesar de passar pela mesma situação inúmeras vezes, sempre repete o mesmo erro, ou melhor, sempre se entrega ao desejo dos desejos.
Nascido em Bela Vista do Paraíso, em 1965, e autor de mais de trinta livros, Miguel Sanches Neto coloca em prática em "A Bíblia do Che" uma técnica narrativa que abarca uma série de elementos pré-determinados para o entretenimento do leitor. Tudo ponderado dentro do senso comum. Embora aborde as desrazões da paixão, a narrativa se revela ponderada e prudente. Avanços em alguns pontos estratégicos, recuos em outros previamente calculados.

Serviço:
A Bíblia do Che
Autor – Miguel Sanches Neto
Editora – Companhia das Letras
Páginas – 288
Quanto – R$ 49,90 e R$ 34,90 (e-book)

- Qual a possibilidade de o exemplar da Bíblia existir? - Trabalho com todos os colecionadores da cidade. Conversei com os principais. Ninguém nunca viu. Dois ouviram falar. - Devo desistir? - Não abandonamos nossas paixões. - O senhor não desistiria, então? - Sei que está querendo dar realidade ao sonho da moça. Nessa idade elas precisam crer em algo. E é sempre mais fácil pegar algo do passado. - A vida das pessoas não acontece no passado. - Se você acredita que os objetos guardam uma parte dos que os usaram, as pessoas ainda estão vivas neles. Sabe, os que mexem com antiguidade são os apóstolos de uma nova seita. A pessoa chega aqui e que pertenceu à época em que o pai emigrou para o Brasil. Vieram trabalhar no campo, ficaram na hospedaria dos imigrantes e foram conduzidos a uma fazenda onde lhes deram apenas o essencial para viver. Duas gerações gastaram a vida na lavoura, daí um dos netos fez faculdade, ganhou algum dinheiro e apareceu aqui querendo um exemplar da "Divina Comédia", em italiano, da década de 20. Ele aprendeu a ler na língua dos antepassados e se esforça para herdar o livro que não puderam ler, não só porque nunca tiveram um livro mas principalmente porque todos eram trabalhadores braçais e analfabetos. Eu arrumo a edição, comovido por essa história de superação das limitações culturais. Ele terá um livro que, na sua historinha para as visitas, está na família há quase um século. Somos todos ficcionistas. (Fragmento de "A Bíblia do Che", de Miguel Sanches Neto)
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