ReproduçãoRicardo Piglia: ‘‘A literatura não está posta em nenhum lugar como uma essência; ela é um efeito’’Seria um crime perfeito se a perfeição não tomasse a estrada do delírio. Roubar milhões de um carro-forte em pleno centro de Buenos Aires, poucas quadras da delegacia de polícia. Para não deixar testemunhas, seria necessário matar todos os ocupantes do carro em poucos segundos. Um crime ousado e perigoso. Para isso, eram necessários homens determinados, violentos e alucinados.
Este assalto e suas consequências estão no mais recente romance do escritor argentino Ricardo Piglia. ‘‘Dinheiro Queimado’’ (Plata Quemada), publicado pela Editora Companhia das Letras, reconstitui todas as etapas deste crime real que tomou grandes proporções alucinantes e trágicas.
Organizada pelo meticuloso Malito, a operação reúne as figuras com as fichas policiais mais longas da cidade. Criminosos capazes de qualquer coisa pela aventura da violência movida por drogas, sujeitos como o Gaúcho Dorda, Corvo Mereles, e Nene Brignone. O assalto, apesar de várias perseguições e mortes, obtém sucesso. Em poucas horas os envolvidos conseguem deixar a Argentina, refugiando-se em Montevidéu. Lentamente as coisas começam a se complicar até a situação limite.
Corvo, Dorda e Nene - amigos e amantes - ficam presos num prédio sitiado por centenas de policiais. Armados até os dentes, abastecidos em abundância de cocaína, anfetaminas e uísque, eles resolvem resistir até a morte. Uma verdadeira guerra começa a ser travada, guerra que se estenderá por dois dias ininterruptos. Tudo muito longe do cinema: os que morrem feridos por balas não morrem limpamente como nos filmes de guerra onde os feridos dão uma volta elegante e caem, inteiros, como um boneco de cera; não, os que morrem num tiroteio são estraçalhados pelos tiros e fragmentos de seus corpos ficam espalhados pelo chão, como restos de um animal saído do matadouro.
Alucinados pela batalha e pelas drogas, os assaltante começam a queimar o fruto do roubo. Colocam fogo em maços de dinheiro e jogam pelas janelas do edifício. A população não se conforma: ‘‘Se o dinheiro é a única coisa que justifica as mortes e se fizeram o que fizeram por dinheiro e agora o queimam, isso quer dizer que eles não têm moral, nem motivações, que agem e matam gratuitamente, pelo gosto do mal, por pura maldade, são assassinos natos, criminosos insensíveis, desumanos.
A batalha termina com a morte de Corvo e Nene e o linchamento de Dorda. Além da morte de dezenas de policiais. A virtude da narrativa de Piglia em ‘‘Dinheiro Queimado’’ está em construir, lentamente a cada episódio, a alucinada psique dos assaltantes, em especial de Dorda e Nene.
Ricardo Piglia afirma que a história contada em ‘‘Dinheiro Queimado’’ é real. Foi baseada num caso policial ocorrido nas cidades de Buenos Aires e Montevidéu em 1965. No epílogo do livro, o escritor declara que respeitou a continuidade da ação e a linguagem dos personagens e das testemunhas da história graças a pesquisa em fontes diversas.
Piglia iniciou sua pesquisa dos fatos em 1968, escrevendo uma primeira versão do romance. Considerava a história como uma ‘‘versão argentina de uma tragédia grega - os heróis decidem enfrentar o impossível e resistir, e elegem a morte como destino’’. Em 1995 retomou o projeto do livro, reescrevendo-o por completo com total fidelidade aos fatos. Publicado no ano passado na Argentina, o livro recebeu o ‘‘Prêmio Planeta de Romance’’ daquele ano.
Romancista, contista, crítico literário e roteirista (escreveu o roteiro original de ‘‘Foolish Heart’’ dirigido por Hector Babenco), Ricardo Piglia é uma dos escritores argentinos contemporâneos mais publicado no Brasil nos últimos anos. O estilo de seus escritos está em colocar num mesmo espaço, sempre semeando referências, as características da ficção e o ensaio. Injeta ficção nos ensaios e coloca temperos ensaísticos na ficção. Não realiza o romance e o conto tradicional, incorpora novas abordagens no gênero. Neste sentido, ‘‘Dinheiro Queimado’’ é distinto de suas outras obras, seguindo a estrutura de um romance convencional.
Seus contos e romances, invariavelmente, praticam um questionamento, uma reflexão, sobre o ato de narrar e suas implicações. Em ‘‘A Cidade Ausente’’ (Editora Iluminuras, 1993) há uma máquina que cria e reproduz histórias. Nos contos de ‘‘Prisão Perpétua’’ (Editora Iluminuras, 1989) os personagens contam suas histórias sempre duvidando de tal fato: ‘‘Narrar é como jogar pôquer, todo segredo consiste em parecer mentiroso quando se está dizendo a verdade. Ou: ‘‘Nunca sei se eu recordo essas cenas ou se as vivi. Tal é o grau de nitidez com que estão presentes em minha memória. E talvez narrar seja isso. Incorporar à vida de um desconhecido uma experiência inexistente que possui uma realidade maior que qualquer coisa vivida. Em ‘‘Nome Falso’’ (Editora Iluminuras, 1988) o ficcionista exercita a tese, utilizando a narrativa de outro escritor (Robert Arlt), de que toda história narrada é uma visão particular do narrador.
Piglia encara a literatura como um espaço fraturado, onde circulam diferentes vozes, vozes que são sociais: ‘‘A literatura não está posta em nenhum lugar como uma essência; ela é um efeito. O que torna um texto literário? Questão complexa, à qual, paradoxalmente, o escritor é quem menos pode responder. Num certo sentido, um escritor escreve para saber o que é a literatura.’
• Dinheiro Queimado - de Ricardo Piglia, Editora Companhia das Letras, tradução de Rosa Freire D’Aguiar, 181 páginas, R$ 20,00.

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