Para o crítico literário norte-americano Harold Bloom, William Shakespeare (1564-1616) é uma verdadeira divindade. Um deus diante do qual todos os homens deveriam, perante a grandiosidade de sua obra, ajoelhar-se e rezar.
Bloom vai além. Em suas palavras, somos seres humanos criados à imagem e semelhança das idéias do dramaturgo inglês. Somos suas criaturas:‘‘A Bardolatria, isto é, a devoção a Shakespeare, deveria se tornar uma religião secular mais praticada do que já o é. As peças continuam a ser o limite máximo da realização humana: seja em termos estéticos, cognitivos, e, até certo ponto, morais e mesmo espirituais. São obras que se colocam além do alcance da mente. Não somos capazes de atingi-las. Shakespeare prossegue ‘explicando-nos’, em parte, por que nos inventou.’’
Esse argumento de Harold Bloom é o eixo central de ‘‘Shakespeare - A Invenção do Humano’’, sua mais recente obra que acaba de ser publicada pela Editora Objetiva. Fruto de décadas de estudos, o autor realiza uma análise detalhada de todas as 35 peças de Shakespeare – das primeira comédias como ‘‘A Comédia dos Erros’’ e ‘‘A Megera Domada’’, às grandes tragédias como ‘‘Hamlet’’, ‘‘Rei Lear’’ e ‘‘Macbeth’’.
Em um catatau de 900 páginas, Bloom divide a literatura, bem como os sentimentos humanos, em ‘‘a.S.’’e ‘‘ d.S’’. Ou seja, antes de Shakespeare e depois de Shakespeare. Ele começa o livro com as seguintes palavras: ‘‘Antes de Shakespeare, os personagens literários são, relativamente, imutáveis. Homens e mulheres são representados, envelhecendo e morrendo, mas não se desenvolvem a partir de alterações interiores e, sim, em decorrência de seu relacionamento com os deuses. Em Shakespeare, os personagens não se revelam, mas se desenvolvem, e o fazem porque têm a capacidade de se auto-criarem. Às vezes, isso ocorre porque, involuntariamente, escutam a própria voz, falando consigo mesmos ou com terceiros. Para tais personagens, escutar a si mesmos constitui o nobre caminho da individualização, e nenhum outro autor, antes ou depois de Shakespeare, realizou tão bem o milagre de criar vozes, a um só tempo, tão distintas e tão internamente coerentes, para seus personagens principais, que somam mais de cem, e para centenas de personagens secundários, extremamente individualizados.’’
Considerado um dos maiores crítico norte-americano em atividade, Harold Blomm é visto por alguns como um erudito tradicionalista, por outros como um reacionário prepotente. Na verdade, ninguém precisa concordar com os argumentos do autor de ‘‘Shakespeare - A Invenção do Humano’’. Ele já assumiu posições polêmicas como o argumento de que alguns textos bíblicos como ‘‘Gênesis’’, ‘‘Êxodus’’ e ‘‘Números’’, foram escritos por uma mulher chamada ‘‘J’’.
Essa tese está em ‘‘O Livro de J’’ publicado em 1992 pela Editora Imago. Outras posições polêmicas aparecem em ‘‘O Cânone Ocidental’’ publicado em 1996 pela Editora Objetiva. Nessa obra, defende a idéia de que a literatura, aquela que realmente deve ser apreciada pelo ocidente, está apenas nas mãos de uma dúzia de escritores – e todo o resto pode desprezado.
É inegável que ‘‘Shakespeare - A Invenção do Humano’’ passa a ser uma obra de referência para aqueles que desejam compreender o universo literário do dramaturgo inglês. A análise do autor, que traz consigo uma sólida carreira intelectual, levanta novas questões sobre a construção dos personagens arquétipos que povoam as criações de William. Mas se John Lennon ainda estivesse vivo, talvez compraria briga com Harold Bloom por ele afirmar, com todas as letras, que ‘‘depois de Jesus, Hamlet é a figura mais citada no Ocidente’’.
•‘‘Shakespeare - A Invenção do Humano’’ de Harold Bloom, Editora Objetiva, tradução de José Roberto O’Shea, 896 páginas, R$ 64,90.

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