Um agonizante retrato da AIDS
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quinta-feira, 31 de julho de 1997
Danielle Brito Especial para a Folha2 
DivulgaçãoCena de Noites Felinas. No filme, o diretor Cyrill Collard interpreta a si mesmo, no papel do fotógrafo Jean (primeiro a direita)No século em que a Aids surgiu, o cinema não tardou a contar histórias reais ou fictícias dos conflitos e dramas causado pela doença. É assim com Noites Felinas (1992), filme francês que o Eurochannel destacou para a meia-noite. Trata-se de uma trama baseada em fatos da vida real de seu diretor Cyrill Collard. Jean, também interpretado por Collard, é um fotógrafo bissexual que descobre ter contraído o HIV depois de uma viagem ao Marrocos.
Durante a produção de um comercial ele conhece a jovem Laura (Romane Bohringer de A Acompanhante), de 18 anos, que veio para um teste. Os dois se sentem imediatamente atraídos e Jean fica dividido entre a bela atriz, um namorado temperamental, Samy (Carlos Lopez), e encontros gays casuais.
Depois de fazer sexo com Laura, sem camisinha, o fotógrafo se sente constrangido em revelar que tem Aids. Ao descobrir a verdade, a garota se revolta e se afasta por uns tempos. Samy, de origem hispânica, muda-se então para a casa de Jean.
Enquanto ele inicia uma tratamento com AZT, a relação se envolve gradativamente com facções fascistas, drogas e experiências sadomasoquistas. Laura também passa a interferir de forma doentia e auto-destrutiva nesta ciranda de emoções conturbadíssimas. Tudo tomando como cenário as luzes e as sombras de uma Paris realista.
O longa foi roteirizado a partir do livro homônimo de Collard, que não fez o sucesso estrondoso do filme. O diretor não pôde saborear todos os louros desta fama falecendo de Aids, aos 35 anos de idade, três dias antes do filme receber o prêmio César, o Oscar do cinema francês, de melhor filme, montagem, atriz e atriz-revelação.
Collard soube imprimir neste drama sua experiência como soropositivo e toda a angústia de uma geração cercada pelo pesadelo do vírus. É estranha a emoção ao assistir Noites Felinas pois no filme transparece a agonia do início ao fim. Ao mesmo tempo é uma belíssima fita porque não faz desta emoção um apelo sentimental para comover o público. É realidade nua e crua que estimula uma reflexão profunda.


