'Ulysses' ganha terceira tradução no país
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segunda-feira, 14 de maio de 2012
Fabio Victor <br> <br> Folhapress 
Há clássicos literários reverenciados, outros populares. E há os que, embora muito reverenciados, são muito pouco lidos. Este parece ser o caso de ''Ulysses''. Apontado em diversas enquetes com críticos como o principal romance do século 20, o livro maior do irlandês James Joyce (1882-1941) é uma provocação ao leitor. É enorme (mais de 800 páginas), experimental e vertiginoso.
Surge agora mais uma chance para os brasileiros de enfrentá-lo: a nova tradução ao português de Caetano W. Galindo, com coordenação de Paulo Henriques Britto e edição de André Conti, para o selo Penguin-Companhia, a terceira disponível no país, que acaba de chegar às livrarias.
As diferenças para os trabalhos de Antônio Houaiss, de 1966, e de Bernardina da Silveira Pinheiro, de 2005, começam no título. Galindo é o primeiro a adotar a grafia original em latim, ''Ulysses'', com ''y'' no lugar do ''i'' aportuguesado de Houaiss e Bernardina.
O volume traz uma nota do tradutor, na qual ele promete para breve um guia de leitura do romance, e uma introdução do professor irlandês Declan Kiberd. Kiberd relembra como Virginia Woolf - que nasceu e morreu nos mesmos anos de Joyce e cuja obra, como a dele, entra agora em domínio público - rejeitou ''Ulysses'' à época do lançamento, o definindo como a obra ''de um estudante nauseado espremendo suas espinhas''.
Kiberd também refaz a trajetória tortuosa do romance, censurado e processado por obscenidade e publicado em Paris, em 1922 (completa 90 anos e seu criador, 130).
A obra de Joyce narra um dia na vida de Leopold Bloom - um agente publicitário dublinense, anti-herói baseado no Ulisses da ''Odisseia'' de Homero, casado com Molly Bloom, sua Penélope infiel -, e de seu amigo Stephen Dedalus, correspondente de Telêmaco e alter ego de Joyce. O ano é 1904, o dia é 16 de junho, o mesmo em que hoje ocorre o Bloomsday, celebração anual do clássico.
Seria prosaico assim, se ao mesmo tempo ''Ulysses'' não tivesse revolucionado a forma tradicional do romance, criando novas ortografia e sintaxe e imprimindo à narrativa um fluxo verbal alucinado, que leva ao limite o chamado monólogo interior.
Convulsionou a literatura a ponto de virar anedota, como relata o escritor Daniel Galera ao lembrar que sua história com o livro começou aos 12 anos, quando o pai dele ''apontou para aquele tijolo no alto da estante e disse: 'Tá vendo aquele livro? Tem uma frase de 50 páginas que fica contando o pensamento de uma pessoa'''. Referia-se ao monólogo de Molly Bloom, o trecho final de ''Ulysses''. Segundo Galera, aquilo instalou nele ''um fascínio imediato pelo volume'', que só viria a ler quando adulto.
Outra vítima da mística de ''Ulysses'' foi o escritor Joca Terron, que paquerou por anos uma edição do livro na estante do pai, sem coragem para encará-la. Quando o fez, leu só um terço, até que o pai tomou de volta o exemplar.
A jornalista e colunista da Folha Barbara Gancia diz ter lido ''Ulysses'' ''na marra'', porque fazia parte do seu currículo escolar. ''Ou melhor, não li. Ninguém 'lê' 'Ulysses', estuda-se o livro parágrafo por parágrafo. É tão complicado e cheio de referências que talvez seja uma boa ideia usá-lo como aposto na leitura de 'Retrato do Artista Quando Jovem', a obra que o precede e é um pouco mais amigável.''
Discorda dela o professor e crítico Alcir Pécora, para quem ''em termos de prosa inglesa, apenas [Laurence] Sterne e [Joseph] Conrad planam nas mesmas alturas'' que o Joyce de ''Ulysses''.
O escritor e tradutor Daniel Pellizzari, que como Pécora leu e adorou, considera que, mesmo sendo ''importantíssimo na história da literatura'', ''Ulysses'' não é um livro essencial, ''do tipo que se diria que 'todos precisam ler'''.
Para quem quer enfrentar, o escritor Nelson de Oliveira sugere: ''Esqueça as notas de rodapé [eliminadas na nova tradução] e os mapas de leitura. Entre desarmado no labirinto''. Fã do livro, o artista plástico Nuno Ramos aconselha que ''quando ficar chato, pule - quem sabe para voltar depois. Vale a pena''.


