Londrina

Reprodução‘‘Tintureiro’’ (1942)A vida de Cândido Portinari chegou ao fim numa manhã de sol, na cidade Rio de Janeiro, em 6 de fevereiro de 1962. A intoxicação pelas tintas o consumiu aos poucos. Naquele 6 de fevereiro, ele estava trabalhando na obra Índia Carajá, que ficou inacabada. Aos 59 anos havia produzido mais de 4.500 trabalhos, entre pinturas, murais, painéis, telas, desenhos e gravuras. A grande inspiração de Cândido Portinari foi sua cidade natal, Brodósqui, no interior de São Paulo, onde nasceu em 1903, numa fazenda de café. Entre essas duas datas - 1962 e 1903 - um artista dinâmico, inovador e multifacetado produziu uma obra abrangente no cenário brasileiro.
Com essa retrospectiva, o Museu de Arte de São Paulo - Masp - reservou ao público 214 obras (142 pinturas e 72 desenhos e gravuras). Em Retratos de Família e Retratos de sua Geração, encontra-se o primeiro trabalho dele, realizado aos 10 anos de idade, retratando o músico Carlos Gomes (1913); e também o conhecido retrato de Mário de Andrade (1935).
Destacam-se ainda fragmentos dos painéis ‘‘Guerra e Paz’’, para a sede das Nações Unidas, os trabalhos para a igreja da Pampulha, em Belo Horizonte e as cenas das festas populares. Nesta fase denominada Festas e Morros, a pesquisa cromática empreendida pelo artista foi de suma importância para personalizar sua obra.
Os tipos humanos de Portinari nos desafiam com o olhar, são grandes olhos vidrados. Seu traço inconfundível registrou emocionalmente o homem brasileiro. A mais representativa tela de Cândido Portinari, para muitos, é ‘‘Retirantes’’ (1944), que faz parte do acervo do Masp. As barbáries da 2ª Guerra Mundial e a seca do Nordeste levaram o artista a denunciar os horrores do mundo. O monocromatismo e as pesadas linhas de contorno acentuam a dramaticidade do penoso destino dos retirantes.
Neste trabalho, o pintor retrata um grupo de retirantes sem esperança, sobreviventes de um mundo esquecido e pincelados por tons sombrios de azul. Dessa mesma fase aparece ‘‘Criança Morta’’ (1944), um lamento pela morte precoce de uma criança no árido sertão nordestino. Sobre esta tela, Portinari observou: ‘‘o filho menor está morrendo, as filhas maiores soluçam, caem lágrimas de pedra’’.
Por que vale a pena ver a retrospectiva de Portinari? Primeiramente, porque é uma oportunidade rara de entrar em contato com a obra de um artista realmente inovador dentro das artes plásticas do País. Portinari reservou ao cotidiano das pessoas, ao trabalho do homem e ao seu destino trágico um lugar de destaque em sua arte.
As reminiscências de infância no vilarejo de Brodósqui influenciaram sua obra, tornando-a universal. Mas, indiscutivelmente, foi na miséria do homem brasileiro que Cândido Portinari revelou ao público a síntese dessa retrospectiva: a vida é drama e poesia.
A mostra realizada pelo Museu de Arte de São Paulo é correta, didática e bem organizada. O visitante pode alugar um guia eletrônico, ouvindo comentários sobre cada um dos blocos temáticos da exposição. Na primeira sala, o público se depara com a grandiosidade da obra e do artista Portinari, por intermédio de uma projeção (multivisão) de filmes biográficos, depoimentos e descrições das mais importantes obras de Portinari. Para quem se interessar, há visitas orientadas de terça a domingo. Outro charme da mostra é a instalação de um ateliê do Serviço Educativo do Masp que oferece atividades de orientadas por arte-educadores para o público infanto-juvenil.
• Portinari - Drama e Poesia - fica até o dia 1º de fevereiro, de terça a domingo, das 9 às 21 horas, no Masp, em São Paulo. Preço do ingresso: R$ 8,00.

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