Última semana para ver Portinari
PUBLICAÇÃO
domingo, 25 de janeiro de 1998
Francelino França 
Londrina
ReproduçãoTintureiro (1942)A vida de Cândido Portinari chegou ao fim numa manhã de sol, na cidade Rio de Janeiro, em 6 de fevereiro de 1962. A intoxicação pelas tintas o consumiu aos poucos. Naquele 6 de fevereiro, ele estava trabalhando na obra Índia Carajá, que ficou inacabada. Aos 59 anos havia produzido mais de 4.500 trabalhos, entre pinturas, murais, painéis, telas, desenhos e gravuras. A grande inspiração de Cândido Portinari foi sua cidade natal, Brodósqui, no interior de São Paulo, onde nasceu em 1903, numa fazenda de café. Entre essas duas datas - 1962 e 1903 - um artista dinâmico, inovador e multifacetado produziu uma obra abrangente no cenário brasileiro.
Com essa retrospectiva, o Museu de Arte de São Paulo - Masp - reservou ao público 214 obras (142 pinturas e 72 desenhos e gravuras). Em Retratos de Família e Retratos de sua Geração, encontra-se o primeiro trabalho dele, realizado aos 10 anos de idade, retratando o músico Carlos Gomes (1913); e também o conhecido retrato de Mário de Andrade (1935).
Destacam-se ainda fragmentos dos painéis Guerra e Paz, para a sede das Nações Unidas, os trabalhos para a igreja da Pampulha, em Belo Horizonte e as cenas das festas populares. Nesta fase denominada Festas e Morros, a pesquisa cromática empreendida pelo artista foi de suma importância para personalizar sua obra.
Os tipos humanos de Portinari nos desafiam com o olhar, são grandes olhos vidrados. Seu traço inconfundível registrou emocionalmente o homem brasileiro. A mais representativa tela de Cândido Portinari, para muitos, é Retirantes (1944), que faz parte do acervo do Masp. As barbáries da 2ª Guerra Mundial e a seca do Nordeste levaram o artista a denunciar os horrores do mundo. O monocromatismo e as pesadas linhas de contorno acentuam a dramaticidade do penoso destino dos retirantes.
Neste trabalho, o pintor retrata um grupo de retirantes sem esperança, sobreviventes de um mundo esquecido e pincelados por tons sombrios de azul. Dessa mesma fase aparece Criança Morta (1944), um lamento pela morte precoce de uma criança no árido sertão nordestino. Sobre esta tela, Portinari observou: o filho menor está morrendo, as filhas maiores soluçam, caem lágrimas de pedra.
Por que vale a pena ver a retrospectiva de Portinari? Primeiramente, porque é uma oportunidade rara de entrar em contato com a obra de um artista realmente inovador dentro das artes plásticas do País. Portinari reservou ao cotidiano das pessoas, ao trabalho do homem e ao seu destino trágico um lugar de destaque em sua arte.
As reminiscências de infância no vilarejo de Brodósqui influenciaram sua obra, tornando-a universal. Mas, indiscutivelmente, foi na miséria do homem brasileiro que Cândido Portinari revelou ao público a síntese dessa retrospectiva: a vida é drama e poesia.
A mostra realizada pelo Museu de Arte de São Paulo é correta, didática e bem organizada. O visitante pode alugar um guia eletrônico, ouvindo comentários sobre cada um dos blocos temáticos da exposição. Na primeira sala, o público se depara com a grandiosidade da obra e do artista Portinari, por intermédio de uma projeção (multivisão) de filmes biográficos, depoimentos e descrições das mais importantes obras de Portinari. Para quem se interessar, há visitas orientadas de terça a domingo. Outro charme da mostra é a instalação de um ateliê do Serviço Educativo do Masp que oferece atividades de orientadas por arte-educadores para o público infanto-juvenil.
Portinari - Drama e Poesia - fica até o dia 1º de fevereiro, de terça a domingo, das 9 às 21 horas, no Masp, em São Paulo. Preço do ingresso: R$ 8,00.


