Última noite do Free Jazz reúne mestres e jovens talentos
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domingo, 17 de outubro de 1999
Por Antônio Gonçalves Filho 
São Paulo, 198 (AE) - A restauração e a informação formam, hoje, o sistema nervoso da comunidade jazzística americana. Não e só o trabalho de Wynton Marsalis no Lincoln Center que tem provocado um estudo sistemático da herança do jazz como expressão erudita. Músicos jovens como o saxofonista Joshua Redman e o trompetista Nicholas Payton revisitam sistematicamente os mestres do passado, reposicionando-os, com amor e fúria, no cenário musical deste século. Redman fez por Gershwin o que Payton fez por Louis Armstrong domingo, na noite de encerramento do Free Jazz Festival: elevaram esses nomes à categoria de Shostakovich, Alban Berg e outros gigantes.
Como se não fosse suficiente, a noite de domingo teve ainda uma homenagem comovente a Duke Ellington, o Stravinski do jazz. O maior baterista do mundo, segundo o próprio Ellington, conduziu o tributo: o lendário Louie Bellson, que tocou ao lado de remanescentes da orquestra do pianista e compositor. Infelizmente, o trompetista Clark Terry, impedido de participar por problemas de saúde, não veio para mostrar o que aprendeu nos nove anos de convivência com Ellington, mas dois sapateadores, os irmãos Williams, lembraram os bons tempos do Cotton Club, "tocando" "Hot Fet" com os pés e realizando o maior show de tap dancing jamais visto por aqui. No paraíso - São pessoas como essas da última noite do Free Jazz que fazem a vida valer a pena, como diria Woody Allen. Ouvir Joshua Redman tocando "Summertime", Nicolas Payton reinventando "Body and Soul" ou Louie Bellson fazendo um solo de bateria em "Cotton Tail" equivale a uma passagem para o paraíso. Sem exagero. O objetivo do show era relembrar os anos em que Duke Ellington levantou o astral de deprimidos pelo crack da Bolsa de Nova York no Cotton Club (entre 1927 e 1932). Aqui, Bellson levantou uma platéia cansada da eterna crise econômica, tendo como aliados Norris Turney ao saxofone, Barry Lee Hall ao trompete, Britt Woodman ao trombone, Aaaron Bell ao piano e muito, muito mais.
Joshua Redman abriu a noite, ampliando as invenções de seu pai Dewey Redman. Ele tocaria "Summertime" como Dewey ou travaria um diálogo com a revolução de Sonny Rollins? Joshua preferiu o caminho do meio. Ninguém precisou agitar a bandeirinha para que ele voltasse à melodia. Reforçando esse apego à tradição, Redman escolheu como segunda música "Time to Remember", de Irving Berlin, mantendo a linha nostálgica com "My One and Only Love". Idade da razão - Aos 30 anos, Redman está entrando na idade da razão. O equilíbrio compensa a ousadia de cinco anos atrás, quando ainda queria mostrar virtuosismo no Free Jazz. Hoje, a inserção da leitura sociológica passa por um comentário irônico, mas não anedótico, dos clássicos. Como Redman interpreta "Love For Sale", de Porter? Imitando o som dos sapatos de uma prostituta na rua? Não. Ele imita a buzina dos carros, enquanto seu baterista Greg Hutchinson repete a batida do coração daqueles que, dentro dos carros, procuram as moças nas ruas.
Afinal, a prostituição sobre rodas é o que Redman vê nas grandes cidades, não mais a romântica Cabíria de coração aberto como Cole Porter queria. No segundo show da noite, o trompetista Nicholas Payton fez a estréia mundial de seu tributo ao centenário de nascimento de Louis Armstrong (no ano 2000). O homem, além de tudo, está cada dia fisicamente mais parecido com Armstrong. Veio acompanhado de uma turma da pesada (Lew Soloff ao trompete, Delfayo Marsalis ao trombone, entre outros), tocou clássicos como "The Peanut Vendor" e "Potato Head Blues" e - o máximo de refinamento - revisitou o arranjo que o compositor Johnny Green fez de sua mais popular canção, "Body and Soul", para o filme "A Noite dos Desesperados" (They Shoot Horses, Dont They?).
Nessa transcrição de 1969 feita por Green para seu clássico, a pedido do diretor Sidney Pollack, o compositor escolheu o piano para desenhar a linha melódica e subverteu o tempo original de sua obra. Payton segue essa mesma linha, ralentando e dialogando com o baixo. Pesquisa - Payton deixou Lew Soloff brilhar ao trompete em "Drop Me Off" para cantar em homenagem a Armstrong. Foi o segundo melhor momento de um espetáculo histórico, com direito até a uma nota sustentada até a apoplexia em "Potato Head Blues", como na época de Berrigan. Como um garoto de 26 anos pode conhecer tanto sobre uma era, repetindo minuciosamente a escala ascendente Bunny Berrigan? Reposta: estudando. Muito. A nova geração do jazz não acredita na intuição. Faz como Marsalis e Payton: pesquisa.
O contraponto dessa juventude foi a banda de veteranos que Louie Bellson trouxe para homenagear Duke Ellington. Bellson tem mais de 70. Toca bateria como um garoto de 20. Ele, que teve como mestres Max Roach, Roy Haynes e Elvin Jones, agora é o mestre supremo. Como foi que aprendeu? Aceitando um desafio de Roach, que um dia chegou para Bellson e perguntou: "Por que você não toca melodicamente?" Ora, tocar bateria melodicamente equivale a fazer uma batucada com um trompete. Mas Bellson pensou na melodia de "Cherokee" e tentou construir um solo em torno da melodia.
Na noite de domingo, no Free Jazz, repetiu a façanha com "Hawk Talks", o segundo número da banda, a Duke Ellington Alumni, dirigida pelo baterista. A banda interpretou 16 clássicos, entre eles "Perdido", "Skin Deep" e "Prelude to a Kiss". A última teve um apaixonado solo de sax, mas o desencontro da orquestra prejudicou um pouco a clareza desse standard.
Ninguém é perfeito, mas Louie Bellson está chegando lá. Ele passou 15 anos ao lado de Ellington arranjando um jeito de escrever um diálogo de surdos em "Skin Deep". Gravou o solo com os dois surdos, hoje uma lição obrigatória nas academias de música. Sorte de quem foi à noite de encerramento do Free Jazz. Teve uma aula de mestre.


