Lobão, o falastrão, só não arrumou treta com a própria sombra. De língua solta, ele prossegue sua saga solitária disparando críticas mordazes contra gravadoras, medalhões da MPB e colegas de geração.
O músico se apresenta hoje, às 20 horas, no Anfiteatro do Zerão. O show, que terá abertura da banda local Espíritos Zombeteiros, marca o encerramento das atividades do primeiro ano da Rede da Cidadania, o programa de oficinas desenvolvido pela Secretaria Municipal de Cultura de Londrina.
Diferente do formato acústico de seu último show na cidade, há três anos, o músico carioca sobe ao palco desta vez empunhando uma guitarra e acompanhado de Rodriguez no baixo e Dino na bateria. ''Vai ser um show barulhento, de power trio'' avisa o artista. O núcleo do repertório é o CD ao vivo ''Uma Odisséia no Universo Paralelo'', lançado no começo do ano reunindo canções dos álbuns ''Noite'', ''Nostalgia da Modernidade'' e ''A Vida é Doce'', além de sucessos antigos e as inéditas ''Lullaby'' e ''Para o mano Caetano''.
Esta última, segundo ele, é o ponto alto do espetáculo. A letra traz uma verborrágica réplica a Caetano Veloso, com quem Lobão travou um ácido diálogo publicado na revista Trip. ''Por incrível que pareça, o público pede as músicas que não tocam no rádio'' afirma. No show, estão previstas duas composições novas, que deverão entrar em seu próximo trabalho.
A partir de janeiro, aliás, ele pretende renovar o set incluindo sete novas composições ao repertório. ''Quero estrear o ano com um novo chassi'' brinca. O plano para a próxima temporada é lançar um CD duplo. ''Estou numa fase profícua'' conta. ''Sou um artista atuante, por isso tenho muito assunto para colocar em letras. Sou o contrário do artista higienizado, esterelizado, que fica parado em suíte de hotel olhando a paisagem. Estou com muito material para gravar. Quero soltar logo um disco duplo para mostrar para as gravadoras que o Lobão não é só de falar, mas de fazer''.
Lobão cogita lançar uma tiragem de duas a cinco mil cópias numa edição luxuosa para colecionadores. O disco terá surpresas. ''Vou gravar composições inéditas do Cazuza, que a mãe dele me mandou. Vou musicar também um manuscrito que o Júlio Barroso escreveu 24 horas antes de morrer'' anuncia. Catalisador das iniciativas indepedentes, o cantor engatilha o lançamento de uma revista mensal, prevista para chegar às bancas na segunda quinzena de março.
A publicação, batizada ''Outra Coisa'', terá distribuição nacional e tiragem inicial de 100 mil exemplares reunindo matérias sobre manifestações culturais alternativas com ênfase para música e literatura. Cada edição vai trazer o perfil de um artista. B. Negão será o destaque do número de estréia. As reportagens investigarão o mainstream. A revista estará associada à DirecTV, que gravará festivais de música realizados pelos quatro cantos do país.
''A idéia é mexer com toda a cena independente nacional'' avisa. Lobão informa que os independentes já detém 55% da produção de discos no Brasil. ''Já somos majoritários'' observa. ''É uma tendência crescente. Viajando pelo país, consegui reunir 6 mil CDs de artistas desvinculados de gravadoras. É nesse movimento que se encontra a criatividade musical. Por outro lado, nunca foi tão fake, tão pré-fabricado, o que sai das grandes companhias''.
Ele aproveita para criticar o projeto ''Tribalistas'', gravado por Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown e eleito esta semana o melhor disco do ano pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). ''É um engodo, uma fraude'' fulmina. ''Se na época da ditadura, a gente tinha a violência da censura, da perseguição e da tortura. Agora temos a violência cor-de-rosa de Caetano, Gil, Xuxa e de todos esses artistas posando de bons-moços''.
Condenando as grandes gravadoras ao inferno, Lobão culpa o preço abusivo dos CDs pelo surgimento do comércio de CDs piratas no país. ''A margem de lucro é irreal'' afirma. ''Nós, os artistas, ganhamos apenas 1 centavo de cada cópia vendida. Estive doze anos vinculado à indústria musical, devo ter vendido mais de 300 mil discos, mas nunca vi grana nenhuma. Eles ficam com 80% de tudo. A verdadeira medida antipirataria seria baixar os preços e não reprimir camelôs. Vendo meus discos a R$ 11,90, e mesmo com a participação da banca, que fica com 45% do valor, estou ganhando quatro vezes mais do que se estivesse numa gravadora com o CD a R$ 30,00''.
Encabeçando o movimento pela numeração de CDs, Lobão diz que o projeto de lei que tanta polêmica provocou entre os artistas ao longo do ano será finalmente sancionado pelo presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, em cerimônia na próxima quarta-feira no Palácio do Planalto. Pelo projeto, os artistas poderão ter dados mais exatos sobre o que lhes são devidos de direitos autorais, aumentando o controle sobre o que se vende e o que se deixa de vender de cada título.
''Agora vai virar lei'' salienta. ''A proposta inclui um sistema de pontuação eletrônica através do qual poderemos rastrear cópias de CDs em qualquer parte do mundo. Isso aniquila fraudes, anunciando o fim de uma era de desrespeito em relação a direitos autorais no Brasil''. O show de hoje está marcado para o Anfiteatro do Zerão, mas se chover será transferido para o Moringão.
Serviço:
Show de Lobão, com abertura da banda Espíritos Zombeteiros. Hoje, no Anfiteatro do Zerão (em caso de chuva, será transferido para o Moringão), em Londrina. Horário: 20 horas. Entrada franca.

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