Dois dias depois de conquistar o Prêmio Camões 2008, o escritor baiano João Ubaldo Ribeiro exibe o humor e o senso crítico que o tornaram internacionalmente conhecido. De seu apartamento no Leblon, zona sul do Rio, o também colunista se deliciava com a quantidade de telefonemas e e-mails recebidos de amigos e escritores desde a tarde de sábado. ''Estou me sentindo uma celebridade. Pareço até um BBB'', brincou, referindo-se ao reality show.
Oitavo brasileiro a receber a homenagem, criada pelos governos de Portugal e Brasil, em 1988, Ubaldo foi escolhido pelo conjunto de sua obra, que contribui para o enriquecimento do patrimônio literário e cultural da língua portuguesa. Apesar de se dizer feliz e satisfeito com a premiação, ele lamentou o pouco destaque que o assunto ganha no País.''Talvez se eu me chamasse John Brock e ganhasse um prêmio nos Estados Unidos, seria mais conhecido e teria mais espaço no noticiário.''
Dizendo-se de mau humor - situação difícil de ser identificada diante de seus comentários -, Ubaldo avalia que o pouco interesse do brasileiro pela leitura tem como causa a forma com que a literatura é ensinada nas escolas. Segundo ele, os alunos, muitas vezes, são obrigados a ler textos para depois responder a questões confusas e mal elaboradas. ''Os livros didáticos de literatura estão repletos disto. Eu teria dificuldade de responder a perguntas feitas até sobre textos meus'', disse.
O reconhecimento internacional obtido em um país em que poucos buscam a companhia de um livro foi lembrado por Lygia Fagundes Telles, última brasileira a receber o Prêmio Camões (2005). ''É um afago à alma. É árduo o ofício de um escritor em um país como o Brasil, que tem tantos analfabetos. O prêmio me trouxe muitas alegrias. João Ubaldo merecia este reconhecimento'', afirmou a escritora.
A utilização de elementos técnicos e temáticas populares foi apontada pelo imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL) Antônio Carlos Secchin como a principal característica da literatura de Ubaldo. ''Ele é o erudito de bermudas. Ele não é um autor ingênuo e é sofisticado'', disse. Para ele, as obras Viva o Povo Brasileiro e Sargento Getúlio são exemplos claros dessa dualidade.
''Viva o Povo Brasileiro é uma obra fundamental para a literatura nacional. O livro sintetiza a alma de nosso povo'', acrescenta o também imortal Cícero Sandroni, que descreve Ubaldo como uma pessoa de relacionamento ameno e agradável. ''Sentimos falta dele na ABL, mas sabemos que ele produz muito. É o tipo de escritor que mergulha e se dedica totalmente quando está escrevendo um romance. Seu trabalho é admirável'', afirmou Sandroni.
A consistência da obra de Ubaldo também é lembrada pelo escritor Silvano Santiago, que o considera um dos nomes mais importantes da literatura brasileira na segunda metade do século 20. ''Ele faz parte daquela geração de baianos talentosos, como Glauber Rocha. No exterior, ele é tido como o sucessor de Jorge Amado. Boa parte de seus livros é publicada, inclusive, pelas mesmas editoras dos livros de Jorge'', contou.
Para o poeta e roteirista Geraldo Carneiro, que adaptou O Sorriso do Lagarto para uma minissérie de televisão, Ubaldo consegue dialogar com os mais variados públicos. ''Temos um relacionamento ótimo. Adaptar os livros de João Ubaldo para a televisão não é uma tarefa difícil. Seus personagens são muito ricos e seu texto é repleto de ação'', elogiou Carneiro.

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