Com sete anos de atraso em relação ao espetáculo ‘‘Sete ou Oito Peças para Bal钒, e quatro anos depois do lançamento do disco nos Estados Unidos, chega ao mercado brasileiro o CD com a música composta por Philip Glass especialmente para o Grupo Corpo, adaptada por Marco Antônio Guimarães para seu conjunto, o Uakti.
As ‘‘sete ou oito’’ peças eram, na verdade, nove, todas com nomes de rios brasileiros: ‘‘Tiqui꒒, ‘‘Japurᒒ, ‘‘Purus’’, ‘‘Negro’’, ‘‘Madeira’’, ‘‘Tapajós’’, ‘‘Paru’’, ‘‘Xingu’’, ‘‘Amazonas’’. Especialmente para o disco, que recebeu o nome de ‘‘Águas da Amazônia’’, Philip Glass compôs mais uma peça, ‘‘Metamorphosis I’’.
Trata-se de um lançamento do selo próprio do Uakti ([email protected] – telefone: 31 291-4641), sob licença do selo independente norte-americano Point Music, de Philip Glass, dedicado à música contemporânea.
Milton Nascimento aproximou o Uakti de Philip Glass, nos anos 80. Nasceu uma parceria que, uma vez realizada, parece óbvia. Glass, que não gosta de ser chamado de minimalista, mas é representante perfeito de uma possível escola minimalista, é um dos nomes mais importantes da música erudita do fim do século 20. Trata-se de um bachiano pós-modernista, que trabalha com estruturas modulares – acomodadas em pequenos blocos –, imitações, espelhos. Idealmente, o Uakti lida com a música sob ótica semelhante: seu tecido musical urde-se de células aparentemente recorrentes, mas que vão tendo a textura modificada a cada revisita.
Philip Glass e o Uakti são complementares. Lidam com a emoção de forma distanciada, como se tivessem (não têm) poder sobre ela, visão abrangente dela, capacidade de manipulá-la, torneá-la. A impressão decorre do fato de a emoção vir à tona sob ordenação rigorosa, sob formas de contorno bem definido.
O compositor norte-americano e o quarteto mineiro têm vasta e rica experiência com música para cena (a colaboração do Uakti com o Corpo não se esgota nesta obra; Glass tem belíssimas trilhas para o cinema, com destaque para ‘‘Mishima: Uma Vida em Quatro Tempos’’, de Paul Schrader, e fez músicas para peças de Gerald Thomas).
Glass encantou-se com a sonoridade peculiar da percussão temperada do Uakti, fundada sobre instrumentos inventados pelo criador, líder, principal compositor e arranjador do grupo, Marco Antônio Guimarães, cria da escola de música de Salvador, aluno de Walter Smetak, herdeiro de sua inquietação e espírito criativo. Dá a seus instrumentos (e os faz com tubos de PVC, madeiras, metais) nomes estranhos e belos: trilá, iarragunga, grande pan, pan inclinado, marimba d’angelim, marimba de vidro – todos no disco.
A música de ‘‘Águas da Amazônia’’ prescinde da cena para ser apreciada. Não difere muito, em suas imensas qualidades, de outros trabalhos de Glass ou do Uakti. Vale-se do mesmo traçado de estrutura reincidente e transpira a mesma atmosfera surreal – a obra parece refletir sobre si mesma, em suas quase-redundâncias, criando sistemas auto-referentes e, aparentemente, bastantes, em si.
Traduzir emoção num ambiente de contornos tão nítidos é a qualidade genial do compositor Philip Glass, que encontrou no Uakti o seu melhor porta-voz (o outro será no norte-americano Kronos Quartet). Imprimir sensibilidade à obra que, em outras mãos, poderia ser árida, é a qualidade genial do Uakti, que sabe explorar o mais sutil da linguagem de Glass: a verdade é que toda a formalidade é apenas uma fantasia, a maneira que o músico encontrou de dizer que, por mais rígidas que sejam as formas, não contém a beleza.

mockup