ReproduçãoTodo mundo já sabe que o U2 está lançando novo CD, chamado simplesmente ‘‘Pop’’, e fez uma promoção mundial com abertura de lojas à meia-noite e tudo o mais. Então o fã, que aguarda um novo disco desde 93, corre até a loja, compra o CD e vai pra casa escutar. Chega lá, põe na primeira música e toma um susto, pula para a segunda, para a terceira e pensa que comprou o CD errado. Nada disso, o U2 mudou.
É claro que isso não vai acontecer, porque quem é fã mesmo já está por dentro de tudo e, afinal, desde o ano passado rolam as novas canções pela Internet. O novo clip já está direto nas MTVs e é feito justamente sobre a música que marca a mudança, chamada ‘‘Discotheque’’.
Não se sabe se buscando um novo público ou se querendo mostrar o atual espírito do grupo, o U2 está flertando com a música eletrônica. Aquela guitarrinha característica do The Edge e os vocais meio gritados, meio melódicos de Bono só vão aparecer em ‘‘Pop’’ a partir da quarta música. Mesmo assim, o disco é inteiro dominado por efeitos, loops e samples típicos da sonoridade dos anos 90.
Reciclagem Adeus anos 80, parecem estar dizendo os rapazes de Dublin que começaram a carreira cantando baladas com letras de conteúdo católico - que para os irlandeses soa como uma rebeldia. Esse início ainda tem uma certa ressonância hoje, quase 20 anos depois. Entre o início e hoje, venderam dezenas de milhões de cópias de disco - apenas The Joshua Tree (1987) vendeu 14 milhões de cópias -, falaram ao vivo durante um show - Zooropa - com Bil Clinton e cantaram, entre outros, com Lou Reed e Pavarotti.

Era preciso mesmo mudar, reciclar-se, buscar novos caminhos para a banda que está a caminho de se tornar uma nova Rolling Stones, pela durabilidade e porque atrai milhões a cada turnê mundial - só a Zoo TV Tour foi assistida ao vivo por 5 milhões de pessoas. A opção da mundaça foi por este som eletrônico, feito para dançar, que muitos insistem em afirmar que é o sucessor - e portanto também o carrasco e o coveiro - do rock’n’roll.
O U2 fez-que-foi-mas-não-foi para o eletrônico. Afinal, tem fãs que precisa respeitar e não pode simplesmente abandonar os cadáveres pelo caminho. A incursão pela música eletrônica feita para dançar também não pode ser considerada desde já definitiva. Tudo vai depender de quanto o grupo levar para casa ao final de cada ano. É assim que funciona o pop.
Realmente a música eletrônica veio para ficar, mas não dá para falar que ela matou o rock. Isso é besteira de quem se guia pela mídia ou quer guiá-la. É evidente que o U2 quer dar uma renovada no público e por isso aproxima-se da tendência do momento. Já fez isso antes e teve algum tempo em que ele mesmo foi tendência copiada por outros.
Inspiração A música eletrônica bebe muito na fonte de outras variantes, buscando com seus samples algo que a torne menos rígida, menos fria, algo mais que tambor tocado por um robô. É por isso que a banda irlandesa foi buscar inspiração até no brasileiro Naná Vasconcelos, de quem sampleou parte de uma canção. Foi também beber em outro núcleo exótico - para eles -, como o grupo Le Mystere Des Voix Bulgares, além de outros não tão excepcionais assim.

A música eletrônica é utilizada também para o rock, não só para o ‘‘Pop’’ e seriam inúmeros os exemplos de gente que já faz isso desde antes de começar a década de 90. Mas esta discussão está desviando o assunto principal que é o disco do U2.
‘‘Discotheque’’, ‘‘Do You Feel Loved’’ e ‘‘Mofo’’ não parecem mesmo coisa do antigo U2. Ficam entre a década de 70 e a de 90, pulando a de 80 e por isso não parecem U2. No clip, eles até brincam com a imagem da discoteca vestindo-se com as roupas que marcaram o grupo The Village People. Mas as três músicas têm pouco a ver com a antiga disco, a não ser que foram feitas para dançar.
Aquela guitarrinha do The Edge, tão característica da banda, não está lá nesse começo. Mas The Edge está lá! Aparece com outras guitarras poderosas, mostrando que o cara é mesmo fera. E, ao final das contas é isso que deixa o disco saboroso. Trata-se de uma banda aproveitando-se da linguagem da música eletrônica e colocando-a a seus serviços. É melhor do que quando apenas os produtores decidem fazer um disco, dispensando os verdadeiros músicos.

Baladas A partir de ‘‘If God Will Send His Angels’’, voltamos a ter as famosas baladas do bardo irlandês, cantando os locais e modos de sua infância, tão conturbada quanto qualquer lugar onde religião é motivo de revolta. Ah, aqui aquele som típico da guitarra de The Edge está de volta e praticamente não abandona mais a banda até o final do disco.
Os pontos altos do disco, além é claro desta incorporação eletrônica do modo como foi feita, são as músicas ‘‘Last Night On Earth’’ - a que tem sampleada a música de Naná Vasconcelos - ‘‘Miami’’ - apesar do ‘‘trocadilho’’ Miami / My Mami - e ‘‘The Playboy Mansion’’. Esta última começa com os seguintes versos: ‘‘If coke is a mystery/and Michael Jackson..history’’. Então a gente tem que prestar atenção. Mistura de rhythm’n’blues com a balada destes irlandeses, cheia de melancolia. Bela canção.
‘‘If You Wear That Velvet Dress’’ é uma típica canção do U2 sem muitas surpresas. ‘‘Please’’ também, mas com a volta de influências eletrônicas que prepara a chegada de ‘‘Wake Up Dead Man’’, em que a religiosidade volta à tona com a ajuda do Le Mystere Des Voix Bulgares. Começa praticamente só voz, violão e samples para depois ir crescendo em direção ao climax que termina o CD.
Para uma revista européia, quando perguntados qual o sentimento que o CD passava, Bono afirmou ‘‘caos’’, enquanto Edge dizia ‘‘promessa’’. Dá para ver que nem os dois mentores desta que é uma das maiores bandas do mundo - em termos coorporativos, sem discutir estética ou gosto pessoal - concordam em sentimentos com o novo disco. Decida você mesmo.

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